O primeiro amor

Posted on 21/06/2011

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Estava deitado mansamente e contemplava o teto sujo e manchado daquele quarto de hotel barato do centro de Madrid, como se contempla um quadro do Museu do Prado. Um ventilador girava preguiçosamente e adornava o ambiente com uma leve brisa que amenizava o calor que entrava pela ampla janela daquele dia de Agosto. La fora, o barulho da vida da cidade agitada era musica aos seu ouvidos. Marcos estava feliz. A sua expressão mostrava isso.

Tinha aquela idade indefinida quando não sabemos se já somos velhos ou ainda jovens. A sua vasta cabeleira era apenas uma memória e seus parcos cabelos já estavam embranquecidos. As suas rugas começavam a lapidar seu rosto suave, sua boca semi aberta denotava dentes não tão brancos e seu corpo esquio não prometia mais a agilidade de um jovem. Mas eram seus olhos que diziam quem era ele. Um homem feliz com uma doce ternura na alma.

Era seu primeiro dia livre depois de mais de 20 anos preso. Tinha perdido a sua liberdade aos 17 anos. Quando nem sabia porque lutava. Mas Franco sabia e essa era a diferença.

Tinha sobrevivido a duas penas de morte que foram comutadas em prisão perpetua e finalmente, cansados de sua triste figura ou esquecidos de porque o mantinham preso, o soltaram. Mas o inimigo ainda espreitava. Franco ainda vivia e podiam se lembrar de seus arroubos revolucionários e do perigo de suas idéias e seus versos, e jogá-lo de novo ao seu inferno.

Marcos era poeta. Um perigo ambulante.

Esperava naquele quarto ser resgatado por seus amigos e mandado ao exílio, longe de sua adorada terra. Melhor isso que a prisão, pensava ele.

Mas queria um ultimo dia na sua tão adorada e esquecida Madrid de sua juventude.

Se levantou e decidiu não mais esperar. Se vestiu com o paletó que lhe tinham dado, adornou a sua bela camisa de algodão com uma impressionante gravata, calçou seus impecáveis mocasins e la foi ele para o mundo la fora. Vagou sabe-se la quanto tempo, fascinado pelas ruas, pelo movimento, pelas lojas e pelas pessoas. Mas o que mais o fascinava e ao mesmo tempo, angustiava, era a sua liberdade. Anos depois, era essa a memória mais marcante dos primeiros dias livre.

Em uma das esquinas da vida, encontrou um velho amigo que não via ha anos, companheiro de cela, mas que teve melhor sorte ou caráter de menos. Não sei e nem importa. Aos amigos se perdoa tudo. E la estavam eles, abraçados em um abraço cúmplice e eterno. Entraram em um bar comeram como reis, mais o Marco com uma fome de 20 anos, já que o amigo quase não tocou a sua comida, devidamente devorada pelo Marcos e beberam alegremente. E como não poderia deixar de ser, falaram de mulheres. Alegremente falaram e conversaram e lembraram velhas reminiscências e o amigo, la pelas tantas, o convida a conhecer um lugar que os mais puristas chamariam de puteiro. Marcos adorou a idéia, mas se preocupou com seus amigos que deviam estar já a sua procura, no seu quarto de hotel. O desejo, o tesão, a aventura, a doce irresponsabilidade da liberdade, falaram mais alto, e la se foi o nosso bravo Marcos conhecer o pecado.

O lugar era amplo, mal iluminado, com musica alta e uma decoração misteriosa, mas o Marcos não reparou em nenhum desses detalhes. O que o fascinou foram às mulheres. Altas, baixas, gordas, magras, mal vestidas, bem vestidas, perfumadas, ousadas, recatadas e todas, absolutamente todas, excepcionalmente belas pra olhos tão ávidos e virgens.

Sentaram e pediram um drinque e o amigo chamou uma amiga, apresentou ao Marcos e disse:

–         Toma aqui 2000 Pesetas (uma fortuna, algo como 500 reais) e toma conta do meu amigo. Eu tenho que ir que a minha mulher me espera. Mas ele vai ficar.

E sem dizer mais nada se levantou e foi embora, deixando o Marcos sem nenhuma ação.

Isabel se aproximou, o fitou e disse:

–         Vamos subir meu bem

Marcos ficou calado. Maravilhado. Perplexo. E seu olhar era tão perturbador que Isabel ficou inquieta. Ficaram em silencio assustador por sabe-se la quanto tempo e todo o tempo o Marcos não parava de olhar a Isabel. Finalmente tomou coragem e disse:

–         Não posso ir com vc.

–         Então toma as 2000 pesetas que eu tenho que trabalhar. Vou te apresentar a uma amiga que talvez vc goste.

–         Não. Vc não entendeu. Eu gostei de vc. È que eu nunca tinha estado com uma mulher antes. Acabei de sair da prisão. Quando me prenderem, eu nunca tinha tido nem uma namorada. Eu só queria conversar, jantar, dançar, namorar. Só isso.

Isabel não disse uma palavra. O pegou pela mão e o levou a um belo restaurante no topo de um edifício e pediram um belo jantar. Conversaram, riram, dançaram, se acariciaram e no final a Isabel falou docemente:

–         Se vc quiser podemos ir agora

–         Eu não sei como fazer

–         Não se preocupe, eu te guio

O apartamento da Isabel era um pequeno sobrado em uma rua lateral perto da boate onde ela trabalhava. Um quarto e uma sala pequena, com poucos móveis e uma grande cama. Simples, mas tinha seu estilo.

Fizeram amor toda a noite e Isabel, em um ato impensado, sempre o guiando, deixou passar a noite no seu apartamento.

De manhã acordou, comprou croissants, leite e um café fresquinho e tomaram um café da manhã na cama, entre os lençóis e seus corpos nus. Fizeram amor mais uma vez e Isabel o vestiu docemente, o expulsando porta fora com um longo e sofrido beijo apaixonado.

Marcos parecia que flutuava pelas ruas de Madrid. Nunca tinha sido tão feliz. Os mais de 20 anos preso eram apenas uma longínqua lembrança. E assim chegou ao seu quarto de hotel barato, onde seus amigos o esperavam preocupados e chateados pelo abandono. Mas a felicidade do Marcos os contagiou e a Maria, mulher de um dos seus amigos, o ajudou a tirar seu casaco e desfazer o nó da sua gravata e de dentro da gravata, cai um pequeno pedaço de papel enrolado. No papel estava escrito: Te espero hoje à noite na boate, Um beijo. Isabel

E junto, estavam as 2000 pesetas.

A história teria acabado ai, se uma história comum fosse. Mas a vida do Marcos nunca foi comum. Longe disso.

Ficou feliz com o convite singelo e com o gesto do dinheiro devolvido. Mais que feliz, ficou emocionado. Apaixonado.

O dia custou a passar e entre planos de saída da Cidade, rotas alternativas, contatos no exílio, tão diligentemente preparado pelos seus amigos, Marcos só queria que a noite chegasse.

Se vestiu com especial esmero. Fez a barba cuidadosamente. Lustrou seus sapatos, se olhou longamente no espelho e ousou se perfumar.

E entre mil recomendações de seus amigos e uma ansiedade de adolescente, la foi o Marcos deslizando e flutuando pelas ruas de Madrid em direção ao seu amor.

Mas a medida que caminhava, uma angustia o assaltava. Uma duvida. Uma inquietação. E como num raio, a sua sensibilidade de poeta aflorou.

Parou em uma loja de flores e pediu a atendente que fizesse um bouquet de 2000 pesetas. Ante o assombro da menina, ele insistiu e começou a escolher as flores e os arranjos. Era um senhor bouquet. Impressionante. Digno da Isabel.

Se encaminhou pro apartamento da Isabel, depositou o enorme bouquet multicolorido de 2000 pesetas na soleira da sua porta e deixou la um bilhete:

–         A Isabel, o amor da minha vida. Marcos.

E foi embora pra nunca mais saber da Isabel.
Marcos tinha entendido que o que tinha acontecido no apartamento, a sua primeira experiência com uma mulher, devia permanecer assim. Ele sabia que se a visse de novo, na boate, a Isabel seria apenas mais uma puta e não o primeiro amor de sua vida.

Ele queria ter esse sentimento intacto para o resto de sua vida.

E assim foi.

Esta é uma história verídica do poeta espanhol Marcos Ana, preso pelo regime franquista aos 17 anos, condenado a morte duas vezes e solto depois de mais de 20 anos preso. Viveu no exílio, em vários lugares, falando e escrevendo sempre sobre os longos anos de cárcere em respeito a uma promessa a um de seus irmãos de prisão que pediu, quando ele se ia, que nunca se esquecesse de seus amigos que ficaram pra trás. Lançou um livro com o poético nome de Me diz como é um arvore (Decidme como es um Árbol, Memória de la Prision y la Vida-Ed. Umbriel Tabla Rasa, Barcelona). Nunca publicou um livro. O publicavam.

Mi casa y mi corazón

Si salgo um dia a la vida

mi casa no tendrá llaves:

siempre abierta, como el mar,

el sol y el aire.

Que entren la noche y el día,

y la lluvia azul, la tarde,

el rojo pan de la aurora;

La luna, mi dulce amante.

Que la amistad no detenga

sus pasos en mis umbrales,

ni la golondrina el vuelo,

ni el amor sus labios. Nadie.

Mi casa y mi corazón

nunca cerrados: que pasen

los pájaros, los amigos,

el sol y el aire

Marcos Ana

Decidme cómo es un árbol

Decidme el canto del río

cuando se cubre de pájaros.

Habladme del mar. habladme

del olor ancho del campo,

de las estrellas, del aire.

(del Poema LA VIDA, prisión de Burgos, 1960)

Marcos Ana

 

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