O Ogro

Posted on 22/06/2011

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Tínhamos aquela idade em que não esta claro se somos crianças ou adolescentes.

Ainda acreditávamos em muitas coisas que a vida mais tarde se encarregaria de destruir.

O sol forte do começo da tarde nos deixava prostrados na grande varanda de nossa casa. Preguiçosas moscas pousavam em partes dos nosso corpos e passávamos o tempo tentando pegá-las em pleno voo as espatifando depois no chão.

O meu amigo Silvio e eu não tínhamos nada a fazer. Na grande casa da fazenda, todos dormiam e o único barulho que de vez em quando atrapalhava aquela pasmaceira era algum cachorro que latia ao longe ou um galo que não tinha muita noção das horas.

– Podemos ir nadar no rio, sugeri eu

– Que nada. Acabamos de almoçar. Eles não deixam.

– E daí?

– Daí que já levei bastante cascudos nestas férias.

O calor sufocava qualquer tentativa de movimento. Olhávamos o horizonte sem olhar pra nada.

– Podemos ir pegar uns ovos na chácara do Zé.

– Ta louco. O Zé é uma fera. Dizem que ele já matou varias crianças. Tem uma panela enorme em que joga elas la dentro e fica cozinhando por horas

– Porra nenhuma. Isso tudo é conversa pra boi dormir.

– Não é não. Eu sei. Sabe o Marcelo? Pois é…foi roubar uns ovos e sumiu e nunca mais ninguém soube dele.

– Que nada. O Marcelo foi morar na cidade. Eu vi ele o outro dia.

Eu tinha mentido. Não tinha visto Marcelo mas aquela pasmaceira estava me irritando

– Vum bora. O Zé é gordão e dorme feito um porco. Num vai nem perceber

– Sei não…

– Te dou minha sobremesa hoje à noite….

O Silvio meio relutante mas tentado pela promessa da noite se convenceu e la fomos nós. O Silvio era um guloso.

A plantação do Zé era enorme e meio esquisita. As histórias que contavam sobre a sua crueldade davam fama ao lugar e contribuía para a desolação daquelas paragens. Parecia que não havia vida nas terras do Ogro Zé. Era uma plantação de milho e a sua cabana ficava bem no meio da enorme propriedade. O milho estava alto e escondia parcialmente a cabana ao longe. O celeiro onde ficavam as galinhas e os ovos que eram o objeto da nossa missão ficavam ao lado mas não tão perto da cabana onde o Zé devia estar dormindo a sono solto.

Ficamos imóveis olhando a cabana ao fundo, tentando ouvir os ronquidos do Zé.

Nada. Nenhum barulho. Um pássaro gralhou ali perto nos assustando. Estávamos como coração na ponta da boca, batendo em um ritmo acelerado, coma adrenalina a mil.

Ficamos com medo do Zé ouvir os latidos dos nosso corações e as histórias de sua crueldade e sua sanha com os garotos nos deixou apavorados

– Melhor voltar…

– Já tamo aqui….vamu mbora…O gordo ta durmindo…

Ficamos mais um pouco na espreita tentando adivinhar algum movimento ou algum som mas o silencio nos deu coragem e fomos nos esgueirando em direção ao celeiro.

È engraçado com nas situações de medo, os barulhos que fazemos parecem ser um estrondo.

Paramos e tomamos fôlego. O Celeiro estava perto. Era só uma questão de poucos metros. Escrutamos a plantação.

Nada. Nenhum som, nada se movia.

Ficamos mais seguros e continuamos a nossa penosa caminhada e já podíamos sentir o cheiro da galinhas.

Ia ser fácil. Uma moleza. Íamos comer ovos de tarde.

Oooooooba….

De repente o sol despareceu e caímos no chão. A figura enorme e ameaçadora do Zé estava em pé e nos olhava com seus olhos de sangue. Suas enormes mãos ia nos pegar e nos esmagar como gravetos. Seu bafo quente fungava nos nosso pescoços e podíamos sentir a morte chegar. Estávamos paralisados de terror. O Zé nos tinha pego e nos ia colocar na sua enorme panela fumegante.

Não sei de onde, gritamos a plenos pulmões e conseguimos nos desvencilhar das poderosas garras do Zé e começamos a correr em desabalada carreira. Víamos o Zé correr atrás de nós, agitando suas gigantescas mão tentando nos pegar.

Atropelamos metade da plantação do Zé e saímos ao claro com varias espigas penduradas em todas as parte do nosso corpo.

Não paramos de correr até chegar em casa e nos jogar, exaustos, na varanda silenciosa.

O coração queria sair dos nossos peitos. Olhávamos em direção a estrada para adivinhar se o Zé não tinha nos perseguido.

O silencio era total. O mesmo cachorro latia de vez quando ao longe e quando o galo cantou seu canto fora de hora, isso nos acalmou.

Nenhum movimento.

Tínhamos conseguido fugir do Zé. Ufa.

Começamos a rir nervosamente e fomos à cozinha, ainda tremendo ainda de medo, beber uma gostosa limonada gelada que a minha mãe sempre deixava pronta na geladeira.

Voltamos à varanda, meio com medo mas satisfeitos com a façanha.

No dia seguinte íamos contar como tínhamos escapado do ogro maldito.

Toda uma aventura.

Por um bom tempo, juramos nunca mais pegar ovos do Zé ou sequer passar perto da sua casa.

Na enorme plantação de milho do Zé, nada se mexia. Podia se ouvir o suave ronco do Zé ao longe e o latido de algum cão. Até as galinhas cacarejavam em silencio.

Uma suave brisa fazia mexer destrambelhadamente os longos braços do espantalho.

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Posted in: ASSIM É A VIDA