Geraldo

Posted on 04/07/2011

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Geraldo corria pelas ruas desertas do subúrbio. Ouvia os sons de seus passos no asfalto sujo e irregular. Se desviava dos poucos carros mal estacionados e adivinhava sombras ameaçadoras nos becos, portais e terrenos baldios que cruzavam sua tresloucada corrida. Corria não sabia havia quanto tempo. Estava esbaforido, suava em profusão apesar do tempo chuvoso e frio daquele inverno carioca.

Parou exausto e se agachou atrás de um carro abandonado tentando recuperar o fôlego. Respirava com dificuldade e procurava encher de ar seus pulmões em silencio para não denunciar sua presença. Ficou estático, ouvindo, prestando atenção nos mínimos barulhos. Um cachorro latiu e algo se mexeu no matorral do terreno baldio. Um carro passou no final da rua e pensou ouvir uma sirene que crescia mas que logo depois foi se esvaecendo ao longe.

Depois nada. Não ouvia um som. Arriscou espreitar pela rua que acabava de percorrer. Não se via nenhum movimento. Ninguém. Uma luz se acendeu em um pórtico de uma casa velha e uma mulher apareceu, olhou em ambas direção e despejou um balde de algum liquido. Olhou de novo a rua deserta e entrou. A luz se apagou e a rua voltou a sua penumbra e sua calma.

Geraldo se tranqüilizou um pouco. Tinha sido uma noite terrível. De muito azar.

 

Devia muito dinheiro para as pessoas erradas, com se houvesse pessoas certas para se dever.  Desde que se entendia por gente assaltava e roubava. Nunca com armas. Detestava as armas. As achava obras do demônio. Entrava nas casas geralmente de madrugada quando todos dormiam e levava pequenas coisas. Coisas que podia carregar facilmente.O silencio das madrugadas, a calma aparente era o que ele gostava.

Mas tinha deixado a sua vida de crime. Naquela noite Geraldo perambulava pelas rua, esperando a hora de se encontrar com Marinalva. Marinalva era seu amor. Sua razão de viver. A tinha conhecido no baile dos sábados da comunidade onde vivia. A sua beleza, o seu sorriso, o seu jeito meigo e tímido o tinham conquistado na hora. A lembrança do beijo atrás da Igreja, o sexo no seu quarto escuro, o seu corpo nu, alvo, suave, doce e o seu cheiro de alfazema o perseguiam como um anjo.

Era a primeira vez que Geraldo amava alguém. Por ela tinha abandonado sua vida de crimes. Por ela tinha arranjado um emprego. Por ela freqüentava a igreja só pra entrar de mãos dadas e ficar assim nas intermináveis preces e cantos dos domingos a tarde. Geraldo tinha encontrado a sua felicidade.

Mas o habito faz o monge, diz a psiquiatria barata dos becos e cantos da cidade grande.

 

A pequena janela aberta daquela casa mergulhada na escuridão estava a uma distancia considerável da rua. Era uma missão impossível para um simples mortal. Mas o Geraldo era ágil, pequeno.

Tinha marcado o encontro com a Marinalva na Central do Brasil. Iam pegar o trem daquele final de sexta feira e ir para Ibicui passar um idílico fim de semana.

Pensava no fim de semana e o corpo nu da Marinalva nos seus braços. Estava no primeiro andar e já tinha recolhido pequenas jóias e um relógio bonito de cabeceira que queria dar de presente pra sua Marinalva. Um clarão o sobressaltou. A sala de estar se iluminou por um segundo e foi ai que o Geraldo viu. Em um marco de quadro de um porta retrato, Geraldo reconheceu seu algoz. O sujeito a quem ele devia. A sua divida que ele aos poucos estava saldando. E o sujeito vestia um belo uniforme da Policia Militar do Rio. Aquilo gelou seu sangue. De todas as casas tinha escolhido logo aquela. Soltou o pequeno saco e quis sair daí o mais rápido possível.

 

A porta se abriu violentamente e fachos de lanternas iluminaram loucamente todo o ambiente. Gritos e atropelos. Em um pulo, subiu as escadas passando por atônitas figuras de preto que gritavam palavras de ordem e subiam as escadas em seu encalço. Chegou à pequena janela e aterrissou na calçada. Ouvia gritos e barulho de carros.

Correu como nunca tinha corrido.

 

O silencio da rua o tranqüilizou. Se levantou lentamente ainda ofegante e começou a trotar em direção ao grande muro do final da rua que separava a rua dos trilhos do trem. Havia uma pequena abertura onde se podia cruzar perigosamente. Entrou e ficou espreitando. Carros ao longe pareciam se aproximar. Viu gente correndo.

 

Esperou, protegido pelas sombras. O silencio de novo.

Começou a andar pelos trilhos em direção a Central do Brasil. Uma trem estava parado no meio dos trilhos, enguiçado, e se juntou a pequena multidão que descia e caminhava pelos trilhos.

Ao longe, o enorme relógio era testemunha daquela êxodo de Geraldos que se esgueiravam pelos trilhos em direção a grande estação.

 

Ali estava a Marinalva, o amor de sua vida. Ali estava sua salvação, no meio da multidão de desconhecidos sem rosto.

Geraldo prometeu mais uma vez que jamais faria nada parecido na vida.

 

Se casaria, teria filhos, pagaria sua divida e só entraria na casa dos outros convidado.

Olhou em volta e rostos duros, pareciam sorrir cúmplices de sua promessa.

 

Ao longe um trem saia da estação.

Geraldo se perdeu na multidão.

 

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Posted in: ASSIM É A VIDA