O pateta de tragédia

Posted on 13/07/2011

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Acordava toda manhã. Se acordasse de noite seria um vigia noturno o que não é o caso. Ao acordar se olhava no espelho, depois de fazer suas abluções ruidosas e cheirosas e chegava a mesma cotidiana constatação: o mundo é uma merda. E feio.

Se vestia e as vezes ficava nu mesmo e assim pelado preparava um belo café com leite e duas torradas com manteiga e geleia de laranja, daquelas que tem pedaços de laranja. Na verdade são pedaços de alguma merda que caiu na meleca da geleia na sua fabricação.

Tem dias que ousa e faz dois ovos fritos no azeite de oliva e acrescenta quatro tiras de bacon e molha o pão quente na gema mole. Seu colesterol ta baixo. Ta em 300 e tem que chegar a mil. Ou mil eram as calorias? Sei la, sou um pateta, pensa ele.

Enquanto saboreia seu manjar matutino, le o Globo, uma espécie de bíblia diária e fica puto com todos.

Pronto. Já pode sair e lutar pelo pão nosso de cada dia, cada vez mais nosso e menos meu. O nosso é uma figura de retórica. Esse retórica é um viado ou nestes dias de politicamente correto, um afro descendente boiola. Me confundo com os novos termos. Nem sei quem mais sou eu. Era um babaca agora sou um não afro descendente neo ingênuo e desprovido de maldade intuitiva. Babaca era mais fácil.

O ônibus demora a chegar e quando chega esta lotado. Que beleza. Consegue entrar, não sem antes empurrar uma velhinha que se esborracha na calçada e que não tinha nada que andar de ônibus a essa hora. Acaba de entrar e o nobre motorista com um humor de inglês meio puto que acabou de descobri que não tem mais chá, tem uma acesso de largada de formula um e acelera a toda. A suave manobra faz o pateta constatar in loco a resistência do vidro dianteiro dos ônibus cariocas.  Consegue se equilibrar não sem antes receber polidas comentários sobre a sua ascendência materna do motorista inglês meio puto que a essa hora já esta totalmente puto. O sinal vermelho da esquina faz o nobre motorista testar seus ABS e joga o pateta de encontro a roleta que gira umas dez vezes dando um prejuízo gigantesco ao cobrador que desmaia de emoção. Depois de mais comentários nada aleivosos sobre a senhora sua mãe ele começa a desconfiar da respeitabilidade de sua genitora, E dizer que parecia tão doce, essa puta. Mas consegue se equilibrar entre um enorme crioulo e uma gorda patusca com uma bunda que certamente pagou duas passagens. Só a bunda. O sujeito era crioulo mesmo que se chamar de afro descendente leva uma porrada na certa.

O calor era sufocante mas em compensação a lotação era o triplo do permitido. Espremido que estava qualquer movimento era inócuo e inútil. De repente a gorda patusca se manifesta e ele gostaria de ouvir as suas ponderações sobre a inevitabilidade do ser mas o que ouviu ou sentiu foram as consequências da digestão de meio kilo de repolho no mínimo. O manifestação gasosa foi forte e o cheiro era algo do outro mundo. Não é possível, pensou ele. Será que esse era mesmo o ônibus certo? Ele começou a desconfiar que no letreiro da frente estava escrito a Divina Comedia, Parte I.

Foram exatos 12 manifestações gasosas até seu destino cada um mais sufocante do que o outra. E o pior é que o ônibus estava em um linha expresso. Só parava no destino. Um vendedor de guloseimas que sempre entram e oferecem a plenos pulmões tudo que é merda sempre em uma linguagem rebuscada que ninguém entende, estava desmaiado no chão. Eu comprei dele, antes do desmaio, mais ou menos no quarto manifesto anal-ítico, o seu estoque inteiro de doce de goiaba. Ofereci gentilmente a patusca vaporosa pra ver se aquilo teria uma efeito químico qualquer e tampasse os canhões de navarone. Se alguém acendesse um fósforo seria uma segunda Hiroshima em pleno Rio de Janeiro. Qual o que.

No ponto final do Ônibus, no centro, foi a maior evacuação de um onibis já feito. Em segundos estava vazio.

Mas assim é a vida. Todos os dias acontece uma coisa nesses trajetos.

O ar fresco da manhã de mil ônibus e taxis com seus escapamentos negros era um alivio.

Trabalhava no vigésimo oitavo andar de um prédio. Ao chegar, uma agradável noticia. O elevador estava quebrado e o de serviço não funcionava. Que legal e logo hoje que seu chefe da matriz ia ligar as nove em ponto. Vamos nós de escada. Depois dos oito primeiro andares, que eram de garagem e não contavam no calculo inicial dos 28 andares, começou sua ascensão. Seria longa mas tranquila. Nadava todo dia. Ou seja, não fazia nada. Tinha o fôlego de um inveterado fumador de pipas, cachimbos e cigarros. Tudo ao mesmo tempo. E bebia que nem um gambá. E antes que alguém diga algo o gambá que ele tinha bebia todas com ele. E fumava. Por isso que estavam quase extintos.

Um longa fila se formava atrás dele e na frente, caminho livre por enquanto. Mas eis que numa quebrada do destino ou das escadas na sua frente, subindo ofegante e passo a passo encontra a gorda patusca vaporosa. Meu deus do céu. Como é possível isto. Vade retro. Batemos em retirada, pensou. Que nada, as escadas eram estreitas e a longa fila atrás com compromisso inadiáveis como o dele não permitia nenhum recuo. E assim subiram, em tensão.

Ele entendeu como os missionários no sopé do Krakatoa se sentiram antes da grande explosão.

Mas chegaram todos são e salvos a destino. O estoque, aparentemente, tinha se esgotado e depois de 29 andares mais os oito de garagem qualquer introdução estranha nos pulmões que não o precioso oxigênio bem escasso nesta altura do campeonato seria desastroso. Entre uma arfada e outra, tinha resolvido se livrar do gambá. Péssima influencia.

Chegou a tempo de receber a ligação e absolutamente sem fala, sem fôlego e sem sentido quase, só murmurava algo e, soube depois, concordava com tudo que seu chefe dizia.

Dias depois foi transferido para o recém inaugurado escritório de Volstoi na Sibéria septentrional, um pequeno povoado no meio de uma vasta estepe gelada e deserta com temperaturas de 50 negativos todos os dias do ano e tendo a companhia de 86 soviéticos esquizofrênicos, suicidas e boiolas, onde estava a futura mina de zircônio, o elemento fundamental na fabricação de sei la que merda.

A vida é assim. Mas podia ser melhor, porra.

Levou o Gambá.

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Posted in: ASSIM É A VIDA