A copa América

Posted on 18/07/2011

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Eu sempre achei que o futibol que é como se chama o futebol no Rio, é um jogo de inteligência e erro.

A inteligência de usar o teu talento e saber enxergar o jogo e suas varias soluções para se evoluir e criar as oportunidades de gol. E se não houver erro, fazer o gol.

Não adianta nada vc ter talento que nada mais é do que uma habilidade determinada que é maior que a dos outros se vc não souber usar com inteligência esta diferença.

Assim como também não adianta nada vc ter raça, vontade se vc não tiver inteligência para usar esta força de vontade para ganhar. Se não, corre o risco desta raça ser confundida com brutalidade. E de o talento usado sem inteligência ser confundido com firula improdutiva.

A inteligência é um talento importante no futibol.

 

O erro, esse é evidente. Erra o arbitro, erra o jogador, erra o goleiro, erra o bandeirinha, erra o técnico e erram todos os analistas e quem sabe usar a inteligência se aproveita desse erro.

A sorte é um outro nome do erro. Quando um atacante perde um gol que não se perde se pode dizer que houve um enorme erro ou que houve uma falta de sorte. Bolas que deviam entrar mas não entram, assim como chutes que entram na gaveta com uma rara potencia e fazem uma curva esquisita. A técnica do chute certeiro, da potencia e da curva pretendida todo jogador profissional sabe. Executar e conseguir o efeito pretendido, ou seja, o gol ou o passe, é uma outra história. O treinamento repetitivo, a excelência física, o talento e a inteligência, melhoram as chances da sorte, mas é ela, a sorte que determina o fim.

O Zico em dez pênaltis vai acertar nove e o pereba ruim de bola vai acertar um em dez. Mas pode ser que o pênalti que o Zico errar, o único em dez, seja fundamental, como já foi e pode que o do pereba que acertar o único também seja fundamental como tantas vezes foi. E ai?

A sorte é fundamental em qualquer circunstancia da vida.

 

Nesta ultima copa America edição 2011, a Argentina jogou melhor que o Uruguai e teve menos sorte. Se o Messi faz aquele quase golaço que em circunstancias normais faria, a história seria diferente. Esse negócio de dizer que o Uruguai teve muita raça é uma bobagem que só aparece porque o Uruguai ganhou e nos pênaltis. A raça é implícita no futibol. Assim como a bola.  Se o cara entra em campo sem raça ta na profissão errada e não vai ganhar nada. Em qualquer esporte de alta competição a raça é condição primaria.  E se não tiver bola, não tem jogo, se bem que no jogo entre a Colômbia e o Peru se a bola fosse retirada do campo, acho que o jogo continuaria e ninguém ia perceber nada. Esse foi o perfeito peladon da copa América. Dos que eu vi, pelo menos. Como diria o saudoso Waldyr Amaral um péssimo narrador que era tão lento para narrar o jogo que cantava o gol quando os holofotes do estádio já tinham se apagado há muito tempo e não tinha mais ninguém no estádio e muito menos nos campo.

A sua sonolenta narração era mais ou menos assim: laaaa vai oooo goleiro e entrega aaa bola com as mãos para o lateral e……é gol….goooooooooool….

Como gol, porra? A bola não tava na lateral a 100 metros do gol e de repente é gol. Que porra é essa?

Mas uma vez ele disse em um sonolento jogo do meio da semana no velho Maracanã já demolido: senhoras e senhores…estamos assistindo esta noite a uma senhora pelada…

O jogo era realmente horrível e não tinha nenhuma senhora desvestida andando pelo campo.

O Waldyr Amaral era uma figura engraçada.

Muito melhor do que os atuais narradores da TV que enchem linguiça com informações totalmente inúteis e burras e tiram a emoção e a paixão do jogo. O que me interessa saber que o Brasil não perde do Equador há oito anos e dez meses em jogos da copa América de noite e com a camisa amarela em jogos de quarta de final e que acontecem em agosto e que o apelido do jogador do Peru Guacamole é bunda mole na língua Quechua que só se fala nos Altiplanos perto de Machu Pichu mas somente no verão? E enquanto eu recebo essa valiosa informação houve dez lances de pura emoção.

 

O Brasil teve mais sorte no primeiro jogo do Paraguai no final com o gol do Fred e teve menos sorte no segundo gol paraguaio daquele mesmo jogo.

No segundo jogo com o Paraguai teve menos sorte. A bola quase entrou em muitas situações que normalmente entraria. Falta de talento? Não, falta de sorte.

E a inteligência até que funcionou melhor que nos outros jogos. Mas a bola não entrou e não adianta nenhum argumento ou desculpa, a bola tem que entrar. No gol adversário de preferência.

 

Eu acho o Ganso e o Neymar dois excelentes jogadores. Jogadores divertidos se ver jogar, capazes de fazer coisas que te encantam. São dois jogadores que tem a extraordinária capacidade de te surpreender em uma jogada e só isso já vale a pena vê-los jogar. È isso que faz o talento. Essa capacidade de improvisação que o futebol brasileiro foi sempre pródigo desde os áureos tempos de Pelé e Garrincha.

 

O que estraga a seleção brasileira é a mídia.

Eu não sei vcs, mas eu sempre vejo um jogo completamente diferente daquele que os analistas analisam.

Esse caras bebem?

Não sei, talvez ao vivo no camarote com vários monitores e laptops na frente e tendo que analisar quer queira ou não, todas as jogadas e sem poder falar palavrão, deve dar um barato diferente.

Um jogo de futibol sem palavrão é inconcebível.

Assistir um jogo tem que ser na arquibancada ou na geral, quando essas duas coisas ainda existiam nos estádios civilizados, bebendo cerveja e tecendo considerações sobre a natureza política e sexual de sua eminência que carrega o apito e a bandeirinha e aquele imbecil que acabou de isolar uma bola ou levou um frango horroroso. Nada mais antinatural do mundo do que aquela cena patética que se vê nos jogos de futebol na Espanha quando os dois presidentes dos dois times assistem o jogo juntos, impassíveis, de terno e se cumprimentam no final.

O máximo que acontece de descortesia é um tirar a língua pro outro mas tampando a boca com a mão.

No mínimo que tinha que acontecer entre seres civilizados é o vencedor humilhar o perdedor inapelavelmente. E essa humilhação permanece até o próximo clássico.

O futibol é assim.

Hoje o futebol é assistido em estádios confortáveis, com cadeira numerada, sem poder beber e com um telão enorme que passa os replays e as cenas do torcedores que tem seus cinco segundos de fama e se transformam em patetas perfeitos, abanando as mãos freneticamente que nem débeis mentais iguais aquelas birutas dos postos de gasolina. Ou seja, é a mesma coisa que fazer sexo com aquelas bonecas Barbie infláveis.

 

Eu não sei mas eu sou do tempo em que pra ficar com uma mulher ou pra assistir futibol ao vivo ou pra fazer qualquer coisa na vida tinha que ter paixão.

E a paixão sempre foi algo saudável e enriquecedor.

 

Como dizia aquele arguto observador: eu não sei se foi o mundo que piorou ou se foi a cobertura jornalística que melhorou.

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Posted in: FUTIBOL