O quarto

Posted on 18/07/2011

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O ventilador no teto girava preguiçosamente e apenas criava algum resquício de vento que em nada melhorava o calor sufocante daquele meio de tarde do verão carioca. O teto sujo daquele quarto de pensão barata do subúrbio, era um mosaico de cores e formas e contavam uma história de abandono, testemunha de vidas passadas.

João estava deitado e olhava aquele teto, hipnotizado pelo suave movimento do constante girar e no seu devaneio pensava na sua vida. Ou o que restava dela.

Tinha acabado de sair da prisão onde passara os últimos quarenta e cinco anos de sua vida. Era uma criança quando foi encarcerado e nada sabia o que um homem deveria saber a essa idade. Tinha 60 anos e estava morrendo. Até ai todos morremos, eventualmente, um dia, menos os chatos e os medíocres que esses tem uma desagradável tendência a longevidade. O João tinha sido diagnosticado com uma estranha doença que levaria muito tempo explicar e mesmo depois disso ninguém iria entender, a não ser, claro, alguém com PhD em doenças infecciosas e raras e que raros também são. Nada disso importa, o que importa é que a doença era fatal, assim como a vida. Tinha poucos meses de vida e era por isso que o João tinha sido solto. O crime pelo qual fora condenado, não tinha data para prescrever. Tinha sido condenado a três penas consecutivas de trinta anos e mais uma de vinte anos, algo totalmente inútil, como se alguém sobrevivesse as três primeiras. Bobagens de um sistema jurídico que como todo sistema perdeu sua função original que é o de levar em consideração a vida do homem. Um detalhe.

Era esse mero detalhe que tinha condenado o João. O seu crime?

Tinha roubado uma galinha em um mercado e no roubo, a caixa, uma senhora velha e gorda, tinha sofrido um ataque cardíaco e morrido. Isso era assassinato, segundo os promotores, espécie de torquemadas modernos. O fato da senhora caixa pesar mais de cem quilos, comer torresmo com lingüiça como se come pipoca, beber por dia o que gente normal bebe por semana e ter uma pressão que certamente seria objeto de estudo em algum fórum medico, nunca foi levado em consideração.

A galinha sobreviveu. Poucos dias é verdade e seu destino foi a panela e a pança de alguém, na verdade a sua original função. Era esse o plano do João, só que ele pretendia dividir generosamente a penosa com sua grande família que há meses só comiam farofa, água e um restinho de arroz. Uma dieta que faria a delicia dos gordos de plantão. Mas João e nem ninguém de sua família eram gordos. Eram pobres.

Depois desse longo tempo afastado do convívio do mundo, João já não tinha mais família, já não tinha mais ninguém, estavam todos perdidos ou esquecidos na poeira do tempo.

João só tinha conhecido a prisão. E na prisão viu pessoas que não se entregavam apesar de mal tratadas pela vida. Eram eles seus amigos, seus parceiros, sua família.

Macarias era seu melhor amigo. Solidário até a medula era o ultimo dos românticos. Escrevia poesias em pedaços de papeis que roubava de sua higiene, de seus cigarros que deixava de fumar, de pequenos pedaços de papel que recolhia de pacotes que outros recebiam e aqueles pedaços eram a alegria e o conforto de muitos colegas presos. Eram poesias cheias de esperança, de valor, de romantismo. Muitos choravam e se admiravam que ainda tivessem a capacidade de chorar. Um leve sorriso iluminou o duro e sofrido rosto do João. Podia escrever um livro só contando as aventuras do Macarias, se talento tivesse. Não sabia que não é preciso talento. È preciso vida e isso ele tinha de sobra. Macarias tinha morrido na prisão, o deixando órgão de uma saudosa amizade mas ainda guardava uma de suas poesias.

Se levantou com dificuldade daquela cama suja, se vestiu com sua melhor roupa, ousou se olhar no espelho e saiu para rua encoberta pelo manto da noite.

Tinha marcado um encontro com o amor de sua vida na Central do Brasil, uma puta que tinha conhecido no dia anterior. A sua primeira mulher. E tinha recitado a poesia do Macarias como se dele fosse e as lagrimas, o sorriso, o beijo e o sexo que recebeu, talvez como recompensa, certamente perdoariam a traição pela usurpação. Macarias, o seu querido amigo, teria entendido. João não sabia o que era amor mas sabia que estava amando. Queria casar com ela e ter filhos.

Pegou o trem e como sempre acontece, o trem enguiçou antes de chegar. Desceu, mecanicamente, resignado, como todos e caminhando pelos trilhos, no meio de uma multidão de Joãos, pensava se isso seria possível.

João tinha pensado em não ir ao encontro de sua puta. Queria guardar aquele ultimo e primeiro encontro com uma mulher. Queria preservar esse sentimento do primeiro amor de sua vida.

Enquanto se aproximava da estação, pensou nela, olhou em volta e lhe pareceu ver sorrisos cúmplices naqueles rostos duros que partilhavam o seu caminhar. Diferentes destinos, diferentes vidas, todos se encaminhado para seus diferentes encontros.

João tinha uma vida pela frente.

Morreu três meses depois, nos braços do amor de sua vida, a única que conheceu.

Feliz.

Macarias tinha razão. A vida esta nos detalhes.

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Posted in: ASSIM É A VIDA