O penalti

Posted on 19/07/2011

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Segundo o Neném Prancha, uma espécie de Sócrates do futibol que nunca bebeu sicuta mas bebia cerveja, ou não, sei la, o pênalti é algo tão importante que devia ser batido pelo presidente do clube. Se assim fosse, teríamos uma estranha estatística. De cada dez pênaltis batidos, onze seriam desperdiçados pelas provectas figuras dos obesos e sedentários presidentes de clubes de futibol. A pratica de exercício físico e a habilidade com a bola é diametralmente oposta a importância do cargo nos times de futibol, que é como se chama o futebol aqui no Rio. O máximo que estes dirigentes sabem de bola é que ela é redonda e mesmo ai há controvérsias já que muitos não foram devidamente apresentados a sua senhoria.

 

O pênalti é normalmente destinado ao craque do time. Quem bate é o melhor, o mais habilidoso. E isso porque a chance de errar, teoricamente, com o melhor, se estreita. Mas não se elimina. A única e famosa exceção era o Rivelino, o craque do time, de qualquer time. Ele não batia pênalti porque não gostava e dizia que não sabia.

Eis ai uma sabia observação não sei se proposital. Saber bater. Nem sempre é o melhor do time que sabe bater um pênalti.

Bater pênalti exige certas habilidades que as vezes são inerentes ao jogador mais habilidoso do time. Mas nem sempre e cabe ao técnico ter a inteligência de observar esta particular habilidade.

Vamos as exigências.

Em primeiro lugar o batedor tem que saber aliar força e precisão. Acho uma bobagem o jogador que desloca, por assim dizer, o goleiro. Depois da proibição da paradinha, este deslocamento é virtualmente impossível. Os goleiros de hoje são mais ágeis, tem maior explosão muscular, tem melhores reflexos, são mais altos e sabem enxergar a posição do atacante na hora de bater o pênalti. E somando tudo isso eles quase sempre escolhem um canto e pulam. Querer adivinhar em que lado o goleiro vai pular, uma decisão aleatória, é querer acertar a loteria. Como vc vai adivinhar uma decisão baseada em observações subjetivas? Não da. Será sempre uma adivinhação. A paradinha forçava o goleiro a mostrar a sua intenção e ai sim o batedor invertia o lado, desde que ele tivesse habilidade e sangue frio suficiente para mudar a direção da bola.

Eis aqui o segundo fator importante: o sangue frio.

O batedor tem que escolher um canto e bater forte e preciso. Isso requer natural habilidade que se aprimora com o treino. Forte, a meia altura e no canto. Não tem goleiro que pega e o goleiro só vai pegar se o batedor não tiver precisão ou força suficiente.

E normalmente é o jogador mais habilidoso do time que alia a força, a precisão. Mas nem sempre porque é aqui que entra o elemento que eu acho chave na hora de bater o pênalti: o sangue frio.

O que diabos vem a ser isso?  É isso mesmo, sangue frio, insuficiência de paixão, algo que nós os latinos temos de sobra.  A paixão, eu digo. Precisão e força temos de sobra. Nos falta o sangue frio. Somos artistas e não nos contentamos com simplesmente mandar a bola fora do alcance do goleiro. Temos que fazê-lo com arte.

Reparem em como batem o pênalti o jogador europeu, por exemplo. Da um cacete a meia altura. Friamente e insensivelmente. E segundo as estatísticas, raramente perdem, ou perdem menos que nós, latinos.

Vc bater com força e precisão um pênalti que quase sempre é decisivo exige sangue frio. Vc se sente observado por uma multidão, por teus companheiros, e diante de vc esta o gol que parece menor e o goleiro que parece maior. Vc esta treinado. Saber bater mas tem que abstrair a emoção. E isso exige treino. Um treino tão ou mais importante do que a força e a precisão. E os batedores não treinam isso.

Eu sugeriria o sujeito treinar bater pênalti com um monte de moleques em volta gritando jogando bolinhas de papel, jogando água, invadindo o seu campo de manobra, gritando, xingando, com um monte de gente atrás do gol acenando, de preferência mulheres nuas e gostosas que tirem a concentração. Coloca uma bateria de escola de samba alemã sem nenhum ritmo mas com muito barulho. Cria uma zona total. A bola estaria sempre fora de posição, com tufos impedindo a sua visualização perfeita, fora de prumo, a grama uma merda, molhada, escorregadia. Criando um ambiente tão hostil e desconfortável que levaria o batedor a loucura. E exigir concentração, sangue frio, força e precisão nesse ambiente. Isso é treino. E ensinar a ele que o que ele vai encontrar no jogo é muito pior. Treinar mentalmente. É fundamental. E mesmo assim pode perder.

Pênalti não é loteria. Pênalti é treinar para diminuir a possibilidade do erro. E isso exige treino tanto físico quanto mental.

Treinar em um campo vazio, sem nenhuma pressão, vários chutes, adianta muito pouco. Não significa nada. Nada disso o cara vai encontrar no campo quando chegar a hora. Na hora tem a pressão que é inevitável. E a pressão faz o sujeito errar, um erro que não cometeria em circunstancias normais. Um detalhe que se torna fundamental.

 

Bater falta é outra história. Os melhores batedores de falta sempre foram os latinos. Os europeus aprenderam conosco a arte de enganar a barreira, enganar o goleiro e chutar a bola com curva e meter la dentro do gol. Porque bater uma falta exige arte, manha e tem menos pressão. Muito menos.

O pênalti não. Exige sangue frio, força e precisão. Só e mais nada.

Enganar o goleiro, ou querer enganar, é uma bobagem enorme na arte de bater o pênalti e aumenta exponencialmente a chance de errar.

Portanto para bater o pênalti tem que se escolher o jogador mais frio, com mais sangue frio, que funciona melhor sob pressão. E isso é tarefa do técnico saber identificar. Claro que tem que ter força e precisão mas essas são qualidades inerentes ao jogador profissional. Se o jogador não tiver força e precisão para bater na bola tem que mudar de profissão. Ser comentarista de futebol, por exemplo, onde não se exige que alguém saiba jogar e muito menos entenda o esporte. Tem que saber, falar e dizer besteiras como se estivesse dizendo a coisa mais grandiosa do mundo. Isso também é uma arte.

 

Esse o problema dos comentaristas de futebol.

Quando mais afastado vc esta do fato, melhor e mais precisa a tua observação. Porque a distancia, o tempo, permite vc pensar e observar com mai vagar tudo que aconteceu. Em uma observação, a paixão nunca é boa conselheira. Ela é fundamental para se levar a cabo a observação mas ela normalmente atrapalha a observação dos fatos. O tempo elimina parte dessa paixão e nos faz raciocinar e pensar melhor.

Hoje os comentaristas de futebol na TV tem que analisar o fato segundos depois de ocorrido. E absolutamente sempre o fazem de uma forma totalmente imbecil. O cara que transmite um jogo pela TV tem que saber entender a força do silencio, a força da imagem. Eu estou vendo o jogo e não preciso que ninguém me diga que essa jogada foi sensacional, ou que o jogo esta amarrado, ou que o esquema é o 4 2 4. Eu estou vendo porra.

Mas o cara quer me transmitir o que eu devo sentir, o que eu devo ver. E me influencia. É claro que tempos depois, eu acho as opiniões ouvidas uma merda. Isso porque eu tive tempo de raciocinar e rever o que eu tinha ouvido e sentido na hora.

Nada mais imbecil do que ouvir um imbecil que nunca jogou bola na vida dizer que o determinado jogador tem que tocar de primeira, tem que jogar pelas pontas, tem que deixar de fingir.

A regra básica no futebol é que ninguém entende mais de futibol do que eu. Eu entendo mais do que qualquer um. Essa é a máxima de qualquer torcedor e é irritante ouvir alguém interpretar o que eu estou vendo.

Hoje eu tiro o som e vejo os jogos. É uma merda mas é muito melhor do que ouvir as bobagens epistolares dos narradores. Só falam bobagem , meu Deus do céu.

O que faz a graça dos comentaristas é o humor, a forma engraçada e apaixonada de como eles viram o lance. Como viram não como veem. O sujeito professoral é uma merda e o metido a engraçado é pior ainda.

 

Deviam ter a opção de vc ver os jogos pela TV só com som ambiente do estádio e mais nada. Tipo uma tecla ZAP. Se vc quiser ouvir algum comentarista, vc tecla ZAP de novo e ouve. Se só quiser o som ambiente das torcidas e mais nada, como em um estádio, tecla ZAP de novo. E teríamos uma lista de comentaristas que poderíamos escolher. Muitos atuais comentaristas ficariam surpresos com a escolha ou não de suas observações e teriam que mudar de profissão.

 

Ainda chegaremos la, eu espero.

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Posted in: FUTIBOL