As aventuras de um cavaleiro e de sua amada nas terras escocesas ou de como um boçal produz cagadas em série. (Parte 1)

Posted on 25/07/2011

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O mês era outubro, outono nos campos da escócia e o ano pouco importa. Era, e isso me lembro bem, há muito tempo atrás. No tempo em que acreditava em um amor único e verdadeiro ou no tempo em que ainda acreditava nas suaves declarações de lindas mulheres. Na verdade esse tempo ainda não acabou na minha vida. Continuo um romântico incurável. Ingênuo, dizem meus amigos mais educados. Babaca, dizem os parceiros de putaria. Não importa. O que dizem não reflete o que penso. A vida é minha e assim também as minhas convicções.

Um vento insistente e cortante teimava em se adentrar e se instalar nas minhas partes do corpo mais sensíveis a este tempo úmido e frio. Na verdade não era uma determinada parte do corpo, era a sua totalidade. Um tempo de merda. A minha vestimenta, a de um autentico carioca em terra de pinguim, não facilitava em nada essa eterna guerra contra o frio. Parecia uma cebola, com camadas e mais camadas de roupas totalmente inúteis que me deixavam com um aspecto de um rude e gordo estivador do cais do porto. E o cheiro não era melhor. Já tinha até imitado o habito de não tomar banho dos locais. Nessa era glacial, banho era um vicio dispensável. Eu nunca sabia se estava com doença de Parkinson ou se tremia mesmo de frio. De qualquer maneira, era uma perene e desagradável sensação de desconforto. Me cagava de frio, em bom português.

Tinha chegado aquelas plagas nesses intercâmbios culturais que em algum momento da vida, todos nos metemos ou pelo menos temos vontade de nos meter. Eu passei da vontade e tinha entrado de cabeça e quando me ofereceram Escócia em vi um desses belos folhetos, cheios de magníficas paisagens, gente sorrindo, tempo ensolarado e belas mulheres, pensei no Whisky nacional, deles claro. Era uma boa proposta e resolvi perguntar ao meu professor de Inglês, na verdade um porrista emérito, que dizia que as escocesas eram as mais quentes e fogosas de todo o reino unido e que eram abandonadas aos seus solitários prazeres já que os machos da terra eram todos pouco interessados no sexo oposto ou no sexo de uma forma geral. Bebida boa e de qualidade e mulher de montão, todas carentes. Isso era mais que um intercambio. Era uma promessa de sacanagem explicita. E sacanagem explicita é o que todo estudante de 18 anos pensa. Também pensamos em futebol mas um jogo só tem 90 minutos. O que fazer depois? Beber e pegar mulher, não necessariamente nessa ordem. Isso com o tempo muda. Depois só pensamos em bebida já que as mulheres não nos dão mais bola. Não nos davam originalmente, mas pelo menos ainda tínhamos o fogo da juventude. Mas deixa pra la.

Aqui estava eu com um frio de merda e ainda por cima as escocesas eram feias, sujas, gordas, brancas e não me davam a menor bola. Neste ultimo quesito, igual as cariocas.

O que diabos e vim fazer aqui?

Bom, já que o folheto se mostrou um grande mentiroso, uma obra de arte da propaganda enganosa e sendo o Whisky algo bastante caro para as minhas parcas economias de estudante, o jeito era aprender Inglês. Descobri uma coisa. O Inglês que eu mais ou menos arranhava com as aeromoças e os rótulos de produtos importados nada tinha a ver com o que pretendiam me ensinar. Por um tempo eu cheguei a desconfiar que tinha entrado em um curso de sânscrito arcaico ou Gales das cabras, sei la. Que porra de língua era essa?

Mas o ser humano aprende tudo se devidamente incentivado. E o incentivo era uma das minhas colegas de turma, uma linda, ufa, inglesa. Quer dizer escocesa que chamar escocês de inglês é a mesma coisa que chamar carioca de paulista só porque vc não gosta de frequentar praia e é mais branco que a branca de neve, Pensando bem, quem mora no Rio e não frequenta a praia e é brancão certamente é paulista. Ou gringo. Não importa, os dois são estrangeiros.

Mas vamos a minha musa. Era branca, claro, quase translucida sem nenhum resquício de nenhum raio de sol na sua alva pele. Era quase transparente e não sei porque, isso me encantou. Talvez pelo contraste de seus longos cabelos vermelhos cor de fogo que se derramavam quase até sua cintura em suaves caracóis desarrumados de uma forma sensual e cativante. Seus olhos azuis emolduravam um lindo rosto com um pequeno nariz ligeiramente empinado o que lhe dava um ar de esnobe meio metida a besta. Elisabeth era seu nome e não admitia nenhum diminutivo dando um gelo em quem ousasse lhe dirigir a palavra com um Liz ou um Beth ou um Lisbeth. E convenhamos, um gelo nesse clima é morte na certa.

Consegui seu primeiro sorriso quando lhe dirigi a palavra já que não tava entendendo porra nenhuma que verbo a professora estava conjugando. Eu imagino que ela estava conjugando porque na verdade aquilo era grego pra mim. Será que era?

Não, não é possível. O curso era de Inglês. Pelo menos era o que aquele filho da puta que vendeu esta merda de pacote me tinha garantido. Eu já tava achando que nem estava na Escócia. Esta merda devia ser algum lugar no Polo Norte.

Mas a Elisabeth começava a remediar as minhas agruras.

– Oi, mai neimi is Luish. I am no gudi in tongue. Help? (queria dizer que eu não estava entendo essa língua e se ela podia me ajudar e ela certamente tava entendo que eu não sabia beijar, isso no mínimo)

Sei la o que aconteceu, mas o fato é que ela gostou do no tongue.

O fato é que nos beijamos muito nas próximas aulas e nos amamos muito nas noite que agora já não eram tão geladas. A minha noção daquela estranha língua não melhorou em nada. A língua dela eu conheci bem mas não acho que tenha sido esse o propósito original daquela merda de folheto.

E foi assim que conheci seus pais, uns Lorde metidos a besta com mais de 2000 anos de historia e foi assim que me encontrava correndo por estes campos gelados que nem um alucinado.

Perai. Vamos por partes. O que me fez correr?

Eu conto.

Chegamos no enorme e sombrio castelo da família naquele final da tarde de um Inverno que começava a desaparecer.Era uma imponente construção que se erguia em um promontório na beira de uma lago imenso e suas altas muralhas se perdiam no mar escuro la embaixo onde as ondas batiam com força e vigor. Quando as pesadas portas do castelo se abriram eu pensei que nos recepcionaria o conde Drácula ou o Frankenstein, sei la. Mas foi um mordomo mais velho que matusalém e rígido que nem um poste, impecavelmente vestido. Fez uma leve reverencia a Elizabeth e eu fui logo dando um abraço pensando que se tratava do meu futuro sogro. Ele não entendeu a minha efusividade e quando impassivelmente chamou a Elisabeth de milady entendi que por mais cerimonioso que o pai podia ser não chamaria sua filha de milady. Ou chamaria? Sei la, levei bomba em todos os cursos da socila que frequentei porque paquerava a atendente gostosa de uma de suas filiais.

Depois desse breve little monkey que é como eles chamam o mico, o mordomo, soube depois, nos conduziu ao pátio externo que ficava a uns dez kilometros da entrada principal, passando por extensos salões que pareciam terem sido decorados pelo Clovis Bornay nos seus anos mais doidos.

Lorde Mountbatem e Lady Guinevere estavam tomando chá com porradas, quer dizer, torradas, olhando placidamente o horizonte do lago a esquerda que se perdia nas brumas que começavam a despontar e estavam conversando em absoluto silencio como fazem todos os habitantes destas estranhas ilhas.

– Milady and her guest Sir, anunciou o mordomo

Guest devia ser eu.

Milady deu um leve beijo na face imperturbável do Lorde Mountbaten e outro mais cerimonioso na senhora Lady.

Lord Mountbatem continuou olhando o horizonte e pensei que ele devia estar esperando surpreender o monstro do lago Ness.

Lady Guinevere me lançou um olhar que imagino ter sido o mesmo olhar do Pasteur quando olhou a sua primeira bactéria nojenta.

Me senti um nitrato de pó de merda e ficou aquele silencio constrangedor. Constrangedor pra mim que pra eles o silencio era regra.

Ousei me sentar e a Lady Guinevere me ofereceu um chá como se oferece um biscoito pra um de seus enormes dogues que dormiam placidamente. Eu odeio chá. Pra mim aquilo é água suja. Declinei no que eu pensei ser de uma forma educada.

– Tank iu. Mi eat Elisabeth. Quer dizer, Miladi. (eu tava querendo dizer que eu já tinha comido algo com a Elisabeth mas o Lorde, acho que entendeu outra coisa mais lúbrica e sensual. Que eu tinha comido a sua milady e bradou com uma voz de trovão que me fez devolver pra minhas cuecas o lanche que eu tinha comido há pouco).

– Jaaaaaaaaaames. GUNS

Caralho. Guns eu sabia o que queria dizer. No cu pardal que eu ia ficar imóvel esperando o porra do James trazer os Guns.

E foi assim que comecei a minha tresloucada corrida.

Corria que nem um alucinado pelos campos verdejantes da escócia no meio de uns estranhos bichos assustados que pareciam coelhos ou gambás ou cangurus, sei la, com balas zunindo ao meu redor e juro por deus com algumas deles, as balas, se alojando nas minhas partes posteriores e isso me fez correr mais que os coelhos ou sei la que merda eram aqueles bichos. Nem parei pra perguntar.

Na verdade foi tudo um engano, soube depois. Lord Mountbatem, esse o nome do imbecil do pai da Elisabeth, queria apenas espantar uma raposa que andava comendo as suas galinhas. Eu comia a Elisabeth mas isso ele não sabia. Imagino o meu destino se soubesse. Se ele fazia isso com uma inocente raposa eu estaria pendurado de cabeça pra baixo em um dos seus inúmeros e sombrios porões por uns duzentos anos. Esse era um romance perigoso.

O susto daquele fim de tarde acabou com o meu breve romance e a minha ultima cueca limpa e peguei o primeiro trem pra Londres, entre juras de amor eterno com a minha doce Elisabeth, e fui ver que merda esses bostas de ingleses andavam aprontando alhures.

Aprontavam muito.

Mas isso depois eu conto.

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Posted in: ASSIM É A VIDA