A chegada a Londres do cavaleiro boçal e suas cagadas ambulantes. (Parte 2)

Posted on 01/08/2011

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Depois da minha aventura na Escócia e o breve, doce e perigoso romance com a Elisabeth, aqui estava eu chegando a cidade que um dia foi o centro do Universo. Do universo Inglês, claro, o único universo pertinente de todo inglês que se preze.

A viagem de trem foi animada por uma banda de rock meio chinfrin que viajava pelo país cantando e tocando rock em busca do sucesso e pelo visto o sucesso estava muito bem escondido. Eram desafinados e em compensação eram todos feios. De saco cheio daquela balburdia dos ensaios e da agressão aos meus ouvidos, em busca de um pouco de paz, me mudei para um vagão mais sossegado. Encontrei uma cabine vazia e aparentemente abandonada. O lugar ideal para me abandonar a um doce devaneio.

O minimalista soar dos trilhos e a sucessão de paisagens monótonas, casas iguais e subúrbios industriais decadentes que desfilavam pelas velhas janelas do trem me fez adormecer placidamente.

Sonhei com a Elisabeth, nua no meio dos lençóis brancos do seu quarto, de seus cabelos cor de fogo e seus olhos límpidos e me lembrei do babaca do Lord Mountbatem e seus guns. Acordei com uma sensação de sufoco e ao abrir os olhos me deparei com o que devia ser uma convenção ou algo pelo estilo de senhoras gordas e bigodudas que falavam sem parar sem dar nenhuma importância pra o que se convém chamar de diálogo. E ainda por cima se manifestavam de uma forma digamos, não convencional ou educada. Certamente no jantar servido que elas devem ter atendido e nele se fartado, devia ter generosas porções de repolho porque a expulsão de gases suspeitos e ruidosos tornava o ambiente insuportável. E o solavanco constante dos vagões não melhorava em nada a retenção que se fazia urgente. Aquilo era um horror e a retirada imediata se fazia extremamente necessária. Sai de la como o diabo foge da cruz e deixei pra trás aquele cheiro forte de enxofre ou de sei la o que. Qualquer faísca causaria uma destruição catastrófica.

O jeito foi voltar para a companhia da banda de rock chinfrin. Pelo menos o ar era mais respirável. No final da viagem já tinha até me embalado com a harmonia desafinada e a cantoria sem rima da banda. Vc se acostuma a tudo principalmente se a outra opção é morrer intoxicado por gás mostarda ou algo parecido.

Chegamos à estação de Waterloo pontualmente às 15h e 34 minutos como estava anunciado no bilhete. Essa é uma coisa que os Ingleses prezam. A pontualidade. Não sei porque marcam horários quebrados mas desconfio que seja para enganar. Vc nota se o trem marcado para as três em ponto chegar às três e cinco. Mas não nota se o trem marcado para as três e 12 minutos chegar as três e 16 minutos. Ou quase não nota.

Eu como era um carioca autentico, me atrasava em tudo e joguei meu relógio de pulso, um autentico rolex paraguaio, na primeira lixeira. Não ia servir pra porra nenhuma.

Me despedi efusivamente dos meus novos amigos da banda que me presentearam com vários convites para seu show e não sei se devia considera isso um gesto de amizade ou uma ameaça explícita. Na duvida agradeci e procurei discretamente uma lixeira pra me desfazer daquela ameaça terrorista.

E por falar em ameaça terrorista, acompanhei com o olhar o desembarque das gordonas escatológicas. Pensei em procurar a Scotland Yard e denunciar o atentado a gás, mas desisti. Em compensação sai em direção oposta. Todo cuidado era pouco.

Londres é uma cidade que de vez em quando fica visível entre suas eternas nuvens. Quando aparece o sol seus estranhos habitantes ficam admirando aquele planeta enorme e amarelo como se não acreditassem em seus olhos.

A cidade é bonita, limpa e arrumada e todos falam Inglês. Muito civilizados mas por um estanho habito todos andam do lado errado das ruas, não sei porque. E ninguém reclama. Em Londres o carona é o motorista. Seus taxis são exatamente iguais aqueles visto em filmes e seus motoristas não são Indianos que nem Nova York e falam Inglês. Vc não precisa instruí-los como chegar ao seu destino. Pasmem, eles sabem e o fazem da forma mais econômica. Eles devem receber reclamações dos sindicatos mundiais dos taxistas por essa mania de civilidade. Todos sabem que taxistas têm como norma primeira enganar os turistas e como norma segunda, se der, enganar os locais. Em Londres não.

Pelo menos eu acho que não porque até agora ainda não sei as diferentes divisões da libra, a moeda local. A libra esterlina é dividida em 20 shilling que por sua vez é dividida em 12 pence e os preços tem uma mistura das duas coisas (em 71 foi instituída a divisão da libra em 100 shilling, mas a legislação sobre a moeda legal é uma zona de dar medo). Aquilo é mais confuso que Japonês falando Frances. Já viu Japonês falando Frances? Acreditem, é confuso. Japoneses não sabem pronunciar a letra R e Frances tem excessos de R e fazem questão de pronunciar com toda a extensão do RRRRRR. Japonês em Paris fica mudo.

Saindo da estação de Waterloo, peguei o metro em uma estação convenientemente perto e entrei com as minhas mãos levantadas ao céu gritando a plenos pulmões que eu era argentino. Brasileiro em metro de Londres não é muito bem visto. Não sei porque enchem os caras de bala. Todos me olhavam meio desconfiados e acho que era pelo sotaque. Carioca não sabe falar argentino.

Eu ia pra uma hospedaria de estudantes que tinha sido recomendado pela Elisabeth, o meu amor escocês.

Depois de sair do metro meio estressado mas intacto, andei por simpáticas ruelas estreitas com calçado irregular, meio desertas e cheguei a pensar ter visto em uma delas, a sombra do Jack o Estripador que estava entretido com uma puta e a estripava calmamente. Devia ser a minha imaginação. Assim esperava eu. O meu estoque de cuecas limpas estava bastante reduzido.

Depois de vagar perdido pelo labirinto de ruelas e becos, meio encagaçado, encontrei a minha rua, apenas anunciada em uma placa escondida e cheguei a um casarão meio tétrico de aspecto velho e sujo com enormes janelas escuras. Tinha uma escada de cimento íngreme anunciando uma pesada porta, acho que de madeira. A sujeira não deixava adivinhar. Uma lâmpada de meio watt mal iluminava o numero do prédio. 43. Era la. A Elisabeth definitivamente se amarrava em velhos palácios lúgubres.

Não achei nenhuma campainha e não ousei ficar tateando naquelas escuras paredes que eu jurei ter visto se mexendo. Abri a pesada porta empurrando não sem algum esforço e para minha surpresa não houve nenhum rangido. Entrei em um enorme lobby escuro e, imagino, sujo com uma escada imponente que se adivinhava no final e se perdia na escuridão acima. Perto da escada, uma outra lâmpada também com meio watt de potencia apenas iluminava uma mesa que escondia uma figura humana indefinida, aparentemente também suja que lia ou dormia na sua velha cadeira debruçada sobre uma velha mesa. Era a única luz em todo o ambiente. Vem ca, não seria mais inteligente abrir uma das enormes janelas e deixar o sol entrar? Mas que sol? Estava em Londres. O Sol é uma ficção.

Fui andando em direção a mesa me guiando na penumbra da lâmpada opaca torcendo para que no caminho não houvesse uma buraco com fundo sem fim. Não dava pra ver chongas.

A senhora ou senhor, sei la, dormia placidamente e seu cheiro não dava pra precisar se era de defunto ou de cebola com picadinho mal digerido. Um ronquido mais forte me tirou da duvida.

– Gudi daí

Tava ficando bom no Inglês. Até eu me assustei com o eco da minha saudação no enorme lobby. A figura nem se mexeu.

De algum lugar do alto veio uma saudação cavernosa mas surpreendentemente calorosa:

– Ei man. Subeit here.

Imaginei que queria dizer que era pra eu subir. Me aventurei escada acima numa viagem que parecia não ter fim. O segundo andar devia estar a uns dez andares acima do Lobby e minha mala que era pequena e pratica se tornava um trambolho pelo esforço da escalada. Finalmente cheguei ao final da escadaria e encontrei um simpático e baixinho nordestino que me recepcionou com um forte abraço. Tava explicado o subeit here.

Chico foi meu grande parceiro naquela Londres doida do fim dos anos setenta. Tava na Inglaterra havia dez anos e ainda não sabia falar direito porra nenhuma mas se virava como poucos. Conhecia todo mundo e sabia todas as malocas. Todos os lugares estranhos, todas as ruelas e becos, todos os lugares da moda e os lugares que ninguém sabia que existiam. E em todos os lugares ele era super bem recebido como se fosse um velho companheiro há muito tempo longe de casa. Chico era o Mr. Londres se é que há alguém que mereça esse titulo.

Me instalei no seu amplo quarto que ao contrario do que poderia se imaginar da entrada lúgubre do prédio, era arejado, limpo e claro. Era amplo e despojado, com seis camas bem espaçadas e uma mesa grande maciça no centro de múltiplos usos. Em um dos cantos tinha o que parecia ser um pequeno fogão a gás e um armário que imagino servia como despensa ou alguma coisa assim. As camas eram meio chumbregas com colchão vencido e os lençóis não viam um sabão há algumas décadas. Mas era uma cama e soube depois, grátis, o mais importante. Chico me emprestou um valioso cobertor, limpo, mais ou menos, que ele malocava em um esconderijo secreto. Uma coisa fundamental de se ter em qualquer republica de estudantes. Tanto o esconderijo como o cobertor.

O banheiro era um capitulo a parte.

O casarão tinha sido a moradia de alguma família de posses em um passado longínquo e o bairro outrora importante e hoje um tugúrio aliada a escassez de fundos a tinha transformado em republica de estudantes de parcos recursos o que era meu caso. No térreo, além do amplo e escuro lobby de entrada guardado pela inútil figura fantasmagórica, que em toda a minha estada juro que não vi se mexer, mas roncava e expulsava gases como gente grande, tinha dois amplos salões escuros e fechados que não serviam pra porra nenhuma e uma cozinha também escura e nunca usada. Havia uma porta que dava para um porão, assim se imaginava, mas que ninguém nunca teve a coragem de descobrir. No andar onde ficavam os quartos, inclusive o nosso, tinha um enorme e largo corredor com seis portas de cada lado. Eram doze quartos todos mais ou menos iguais ao nosso, só que o nosso era o mais arejado e claro de todos. E como o banho não era um costume de antigamente e nem de hoje na Inglaterra, a enorme casa só tinha um banheiro. Era grande e ficava no fim do corredor. Se compunha de uma banheira que denotava seu uso e sua imponência de outras eras, um chuveiro adaptado que tirava o suave equilíbrio de suas graciosas linhas, um vaso que também tinha seu estilo e uma pia pequena que destoava totalmente do harmonioso conjunto. Parece que a original tinha se espatifado em algum evento misterioso e tinham tentado substituir por alguma peça parecida, sem sucesso. O chão era um complicado mosaico de figuras não muito definidas, meias gastas mas que mantinha sua original beleza de desenhos geométricos e nas paredes se pendurava quatro pequenas lamparinas cheias de estilo. Era de todos o quarto que melhor retratava a antiga opulência de uma outra era. Não tinha água quente mas querer isso era um luxo inconcebível e o que fazíamos era esquentar a água no pequeno fogão do quarto e tomávamos banho de chaleira. Na verdade o frio, o desconforto da operação e o hábito recém adquirido dos porcos conspiravam para nos fazer tomar cada vez menos banho. Tínhamos que confiar no pouco apurado sentido olfativo do pessoal que convivia conosco. Meu Deus, que saudade do cheiro doce das cariocas.

No nosso quarto éramos eu, o Chico, um indiano, o Raji, um sujeito de olhar penetrante e misterioso que te dava medo, sempre com uma túnica toda preta, um contraste com seu turbante amarelo cheguei, estudante de Medicina, um haitiano, Wilfrid, um negão azul e com um sorriso permanente na sua cara simpática, que estudava arquitetura e trabalhava na cozinha de um restaurante de noite e o Eduardo de La Fuente um argentino com pinta de Rodolfo Valentino, com seu cabelo impecavelmente penteado com bastante gumex e seu jeito de conquistador barato mas que era boa gente toda vida e ensinava tango em uma escola de dança.

Logo nos tornamos íntimos amigos. O Raji recebeu o apelido de Baharat que ele achou ser em homenagem ao rei lendário da mitologia hindu mas quando eu expliquei que era pelas suas vestimentas sempre pretas e seu turbante amarelo berrante que parecia uma barata, ele ficou meio puto e acho que o vi afiando a noite um longo punhal meio curvo. O Wilfrid passou a ser chamado de La Boule por sua mania de querer jogar bola a toda hora e era a maneira como ele chamava a bola. O argentino, passou a se chamar de Socotroco por uma piada que ele contou que ele jura ser verdade, eu era o Rapai, e o Chico era Lampean, uma corruptela de Lampião. Eu falava pra galera que o Chico gostava mesmo de ser chamado de mariabonita. Isso deu algumas confusões resolvidas no final em boas gargalhadas mas que teve no meio alguns belos chutes e pontapés alguns bastante doloridos. O Chico era gente ótima e eu o chamava de parceiro.

Naquela saudosa republica todos tínhamos habilidades que traziam lucros a sociedade. O barata era nosso médico de plantão que sempre nos socorria, desde unha encravada até singelos resfriados e o fornecimento das valiosas camisinhas que o serviço social distribuía no hospital universitário além de alguns estranhos remédios surrupiados de seus plantões que mais nos faziam delirar que propriamente curar.

Wilfrid nos proporcionava suculentos bifes, peixes, batatas e tudo que sobrava dos pratos que tinham endereço para as lixeiras mas que o Wilfrid cuidadosamente embalava pro nosso deleite. Estavam meio mordidas e se notava que eram restos mas a fome era negra e a grana curta. De vez em quando conseguia trazer uma meia garrafa de algum vinho que tinha sobrado e que faziam a nossa delicia nas noites frias daquele fim de inverno Londrino.

O Socotroco era o nosso fornecedor sexual. Não que ele fosse boiola. Por causa de sua estampa de conquistador barato, nos indicava sempre mulheres carentes, suas alunas, que nos proporcionavam breves gozos no meio dos lençóis meio gastos e usados da cama extra que tínhamos no quarto. Tivemos bons entardeceres e algumas se tornaram breves paixões e outras, boas amigas que nos acompanhavam nas nossa malucas estripulias.

O Chico que aos poucos começava a incorporar e a aceitar o seu apelido de mariabonita, era o encarregado de nos proporcionar as baladas. Como ele conhecia todas as malocas, todos os lugares alguns finos e chiques e outros de baixa, alias alguns de baixíssima putaria, a diversão era garantida. Todo fim de semana e as vezes durante a semana tinha alguma festa que o mariabonita descolava e la íamos nós as vezes acompanhado das nossa breves paixões. Mas a maioria das vezes éramos só nós que não se leva sanduiche a banquete. Afinal, naquela época éramos todos uns débeis mentais irresponsáveis.

E eu? Além de tentar frequentar o curso de inglês que originalmente era o propósito daquela viagem, tinha uma especial tarefa. Era o contador. O que contava e escrevia tudo que nos acontecia, as aventuras, as trapalhadas, as loucuras que fizeram parte da nossa construção dos seres que hoje somos. Foi somente anos depois que eu mais ou menos compilei aqueles anos doidos em relatos e mandei pra aqueles meus amigos espalhados pelo mundo.

Aqueles foram anos loucos, dos melhores das nossas vidas e até hoje, apesar da distancia e do pouco contato, separados pelas circunstancias da vida, sempre vamos nos lembrar daquele breve mas profundo convívio da nossa passagem por Londres.

E de uma festa em especial.

Não, isso não é correto. Não foi uma festa.

Foi A festa.

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Posted in: ASSIM É A VIDA