A festa (parte 3)

Posted on 08/08/2011

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Nós não éramos muito chegados a nenhuma droga. Fora os estranhos remédios que tomávamos sob a severa supervisão do Barata, o nosso amigo Raji, não curtíamos nenhuma droga. Éramos uma exceção.

A droga da moda naqueles loucos anos de Londres era o Lucy in the Sky with Diamonds, a música dos Beatles mas também acrônimo do LSD, o acido lisérgico que o visionário do Timothy Leary de Harvard, um psicólogo apologista das drogas opiáceas tinha popularizado nos estados Unidos no meio da comunidade hippie. A sua famosa frase “turn on, tune in, drop out”, se tornou uma espécie de mantra do movimento hippie na década de 60. O seu uso dos alucinógenos começou a despontar quando ele se deu conta, depois do suicídio de sua primeira mulher nos anos 50 que ele era, segundo suas palavras, um empregado institucional anônimo que todo dia de manhã pegava seu carro e ia pro trabalho, enfrentava uma longa sucessão de carros indo na mesma direção e voltava no final do dia, na mesma sucessão de carros voltando, para beber seus numerosos martinis como um dos milhões de robôs da classe media, trabalhadores, liberais e intelectuais existentes. Um porre de vida que ele logo tratou de mudar experimentando LSD.

O LSD é uma droga que produz delírios mentais mas não é viciante e nem é toxica. Esta sendo inclusive pesquisada em vários centros acadêmicos que estudam seus possíveis benefícios terapêuticos para alguns transtornos mentais ou para pacientes terminais de câncer.

Eu sempre achei a melhor droga alucinógena a paixão que certas mulheres conseguem despertar através de um simples sorriso, de um toque, de um beijo ou de uma trepada fenomenal.

Mas nessa época todos experimentavam tudo. Perigosamente.

E não me refiro a década. È a idade. Nessa idade temos tendência a experimentar tudo, a exagerar tudo e não medimos as consequências. Há alguns que exageram nas drogas e outros que exageram na paixão e se casam. Entre a entrada e a saída da adolescência, na parte da vida em que começamos a nos tornar adultos, são fases decisivas onde é fundamental usar um instinto que nos irá acompanhar pro resto da vida, com maior ou menor protagonismo: o bom senso.

Mas naquela época, o bom senso não era protagonista principal e como diria Santo Agostinho a um passo da conversão mas ainda um pecador desejando umas sensuais mulheres que atravessavam e perturbavam sua meditação: Deus daí me força, mas não agora.

A Festa que o Chico mariabonita nos tinha arranjado era um tema constante das ultimas três ou quatro semanas e sonhávamos com o que seria, segundo o Chico, o maior acontecimento hippie de Londres da década.

O Chico era um dos organizadores da festança e lhe tinha sido atribuído uma tarefa. Uma grata tarefa, como logo descobrimos.

Ele era o encarregado dos convites, uma opção lógica por ser o Chico o Chico Mr. Londres. Uma das regras era de que para cada homem que confirmava presença, ele era encarregado de confirmar o convite e garantir a entrada de duas mulheres que se desejassem, podiam levar as suas amigas. Essa proporção geométrica de mulheres garantidas na mega festa que já estava começando se tronar uma Sodoma e Gomorra dos tempos bíblicos, era um dos principais atrativos que criaram uma febre de assédio de tudo que era tribo de Londres naquelas semanas. E o encarregado dos rigorosos processos seletivos dos convites era o mariabonita. E nós, seus prestimosos e honrados asseclas.

Por três semanas nos tornamos mais assediados que água mineral em deserto, mas o mariabonita, experiente nesses arranjos estrambóticos, nos fez jurar, assinar e prometer pelas nossas mães com a ameaça de rogar uma praga que nos tornaria eunucos boiolas se não honrássemos o pacto.

O pacto era que ninguém ia comer ninguém até a festa. O nepotismo sexual estava rigorosamente proibido. Na festa tava liberado geral. Mas até la, nada.

E apesar de nossos níveis de testosterona terem alcançado níveis quase insuportáveis e nosso tesão ter chegado a alturas difíceis de controlar, como homens de palavra, de honra e principalmente com um puta cagaço da praga prometida funcionar, nos mantivemos puros.

Já no final, era tal o tesão in extremis que evitávamos qualquer contato físico, de um simples aperto de mão por exemplo, das inúmeras candidatas gostosas, mais ou menos gostosas, feias, gordas, magras, exuberantes, lindas, cheirosas, enfim, mulheres, que procuravam convites, com medo que elas provocassem alguma explosão que nos desonrasse.

E puros nos mantivemos, mas a que custo e já quase na hora da festa, no final, com os nosso tesão nas alturas, nos perguntávamos seriamente que mal haveria em ser eunuco boiola?

Chico mariabonita era um viado filho da puta.

A festa foi marcada numa antiga fabrica abandonada em uma parte decadente da velha Londres. Não tinha vizinho por perto que reclamassem do barulho e da balburdia. Em uma época que não existia internet, twitter, msn, facebook ou celular, e a logística dos convites era um trabalho insano.

Tinha a musica que não podia ser qualquer musica. Tinha que ser de vanguarda e permanente. Tinham as bebidas, tinha os tira gostos ou alguma parada qualquer pra rangar. Seguranças, barman, gente de apoio. Tinha autorização da policia ou da prefeitura ou sei la de quem? Tinha… que mais?

Sei la, eu tava interessado em algumas gostosas que tinham me prometido o céu, o inferno e o purgatório junto. O resto não me interessava, não me importava e tava pouco ligando.

O grande dia chegou. Nesse dia especial resolvemos todos tomar banho. Colocamos as nossa melhores roupas e escolhemos as mais largas para tentar esconder um pouco da efusiva e aparente alegria do nosso baixo ventre pela festa que se avizinhava.

Claro que nos aliviamos antes pra não passar vergonha mas estávamos ansiosos pelo grande prato principal do banquete. A piéce de resistance.

O nosso trabalho estava feito. Ia ter mulher pra dar com o pau. Literalmente. Acho que foram convidadas todas as garotas de Londres para todos os gostos, tipos, e belezas.

Woodstock era pinto.

A festa começou pontualmente a meia noite. Ou não, sei la. Não tinha mais o meu rolex autentico paraguaio. E ninguém leva relógio pra festa.

A primeira meia hora ou os primeiros cinco minutos, não sei bem, controlávamos a entrada ou tentávamos. Mas quem controla entrada em festa? E era tal a efusividade das convidadas e das penetras que claro, festa que é festa tem que ter penetra, e juntando a longa repressão sexual que logo abandonamos os nossos postos e fomos nos misturar a enorme algazarra que começava a tomar corpo.

O lugar não poderia ser mais perfeito. Era enorme, longe de tudo e tinha vários ambientes em vários níveis totalmente devassados. Não tinha estado nunca nesse lugar e não sabia como era antes da festa. Estávamos ocupados fazendo a seleção e como o lugar era o segredo mais bem guardado do universo, nem sabíamos onde ficava.

A luz que o pessoal colocou era simplesmente genial. Uma luz azul melíflua que dava ao ambiente um atmosfera meio gótica, meio sombria, meio caótica e distorcia todas as feições, todas as pessoas, criando sombras e tons surreais. O som era pancada e a acústica surpreendentemente sensacional apesar do gigantismo do lugar. Estavam todas as tribos possíveis não somente de Londres mas como de todo o mundo. Gente estranha, bizarra, vestidas com as roupas mais estranhas e mais requintadas que jamais tinha visto. A luz tornava tudo mágico.

E que mulheres. Sensuais, lindas, gostosíssimas. Gordas, magras, baixas, altas, louras, morenas, negras, mulatas, asiáticas, com penteados bizarros, maquiagem pesada, longas cabeleiras, carecas lustrosas, piercings ousados e tatuagens psicodélicas.

A bebida de varias cores, vários sabores de varias procedência, estranhas, corria solta e as drogas de todos os tipos também. Nunca soube quem forneceu essa porra toda e quem pagou tudo isso e nem tava muito interessado, ocupado que estava em tirar o atraso tanto tempo reprimido. Tomei uma bebida, uma única que me lembro, e fiquei doidão por três dias e três noites. Nem sei que porra era aquela, um liquido espesso e azul com gosto meio adocicado que desceu queimando goela abaixo e que deve ter feito um estrago considerável em tudo que encontrou pelo caminho até se instalar nos meus neurônios operacionais e criar uma zona total. Pouco me lembro daí em diante dos meus movimentos exatos e tinha a sensação que flutuava que nem um anjo ou um demônio, mas sei com absoluta certeza que fiquei com mais mulheres que a minha vã imaginação poderia supor e a todas, absolutamente a todas dediquei a minha melhor paixão e meu melhor tesão.

E todas as promessas feitas, todas os agrados prometidos, todas as juras juradas na onírica seleção daquele vasto repertório de seres divinos, foram não somente cumpridas como passaram cum laude sexual em todas as etapas de sedução e superaram largamente, sensualmente, eroticamente, todas as melhores expectativas da minha lúbrica alma de fauno priápico e doidaço.

Descobri anos depois o mistério não somente daquele bebida infernal como do misterioso financiador daquela festa e até hoje me arrepio até os últimos cabelos que ainda me sobram.

Mas isso é uma historia a ser contada ou não. Ha que se ter coragem ou falta do enorme medo que os personagens envolvidos ainda provocam. Ainda estão na espreita, la fora.

E a festa?

Isso é uma outra história que deve ser guardada nas nossas melhores lembranças e são personagens principais das nossas melhores saudades. Quem esteve la naqueles três dias da mais pura loucura sabe disso.

 

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Posted in: ASSIM É A VIDA