Onde nascem os valores

Posted on 29/08/2011

0


Não há duvida que o que norteia o nosso comportamento da nossa existência são os nossos valores morais, que determinam a forma como vemos e lidamos com a vida a nossa volta.

E isso depende de nossa educação moral, dos fatos e circunstancias da vida que moldaram esses nossos valores morais.

O que guiou a construção desses valores?

Nascemos em um determinado entorno que tem la seus efeitos na formação do nosso caráter mas que não é definitivo e às vezes nem sequer fundamental.

Um índio que nasceu no meio da floresta ou no meio das planícies pode se tornar um físico nuclear ou um filósofo e assim também um menino favelado de um povoado perdido na Índia ou no nosso Brasil. Como não é certo um acadêmico de Harvard ou do MIT ser um sujeito extraordinário e feliz.

Temos a natural influencia de nossos pais, irmão, parentes e amigos e depois vem os professores, o que lemos, o que assistimos o que vivenciamos e todas estas emoções carregam em si um forte apelo a nossa sensibilidade e de alguma forma influenciam o nosso espírito e ajuda a construir o nosso caráter, os nossos valores morais.

È difícil entender como se da esta construção. Quais são os fatos que nos influenciam mais? Quais os momentos da vida que tem um peso maior e são inesquecíveis? O que detona o gatilho de nossa sensibilidade e nos emociona ao ponto de estabelecer um vinculo forte com esta nova sensação que acabamos de aprender e que se torna por um motivo desconhecido, algo fundamental na nossa vida, nos nossos valores?

Não sabemos.

Somos seres que buscamos incessantemente a nossa essência. Procuramos entender quem somos e o que queremos. Procuramos respostas e nessa busca experimentamos tudo conscientemente e recebemos também influências inconscientes.

O que realmente determina as nossas escolhas?

Como nos educamos para fazer frente a tantos questionamentos a este mundo incrível tão misterioso e tão complicado?

Como respondemos a tantas perguntas?

E como nos paramentamos?

Como diabos nos educamos moralmente?

Essa é uma discussão que enseja muitas ideias e muito pensar.

E certamente o intercambio humano joga um importante papel nisso tudo.

Um dos educadores morais são os livros. Não são os únicos mas em muitos eles foram determinantes. O Brasil tem uma taxa baixa de leitura por habitante e isso se deve a varias razões mas nem por isso eu considero que a nossa educação moral é baixa.

 

Mas há uma interessante vertente nos livros. Os americanos e os Europeus sempre foram leitores habituais. A taxa de leitores por habitantes tanto nos Estados Unidos como na Europa é superior a todos os povos desenvolvidos do planeta e é interessante observar que nem por isso eles tem uma maior sofisticação ou educação moral.

Mas eles acreditam que a leitura dos clássicos é um bom caminho para a formação moral.

Ítalo Calvino, o escritor e filósofo italiano já tinha escrito um pequeno livro sobre a importância de ler os clássicos e segundo ele, um clássico é aquele livro que vc esta relendo, nunca lendo.

 

Agora, Hubert Dreyfuss um professor de filosofia da Universidade de Berkeley na Califórnia e um outro professor de filosofia de Harvard, Sean Dorrance Kelly, se juntaram e escreveram um livro chamado “All things shinning: Reading the Western Classics to Find Meaning in a Secular Age”

Evidente que o que eles defendem é a visão americana e europeia do que seja a influencia dos livros. Falam sobre os clássicos e a sua importância, do Homero e sua Ilíada e como isso foi importante, pelos exemplos morais de seus personagens na educação e formação moral de muitos jovens, eles inclusive. E claro, falam do Herman Melville e sua obra máxima Moby Dick, a história de uma obseção meio doentia.

Me lembro de uma história de um garoto de origem humilde que pelas suas boas notas no colégio recebeu uma bolsa em uma prestigiosa Universidade americana, berço dos ricos e bem nascidos, brancos, claro e uma das coisas que seus novos amigos e professores se admiravam é que ele, já com 20 e poucos anos, não tinha lido Moby Dick e portanto não tinha passado, segundo eles, por uma marco da instrução e do conhecimento fundamental humano. Ou seja, quem não tivesse lido o tal livro da baleia e seus capitão maluco que a persegue pelos sete mares era um ser intelectualmente inferior.

Estranho conceito e que não tem nada a ver com a realidade.

Essa é uma constante na forma de pensar dos americanos e dos Europeus. Tendem a universalizar os conceitos que eles acham fundamental e daí pra injustiça e pra soberba é um passo que eles não duvidam em dar com suas botas de sete léguas.

Não é de se estranhar uma recente pesquisa divulgada na Guernica que cita os ganhos dos CEO´s das grandes corporações. Em média um CEO ganha 344 vezes o ganho de um empregado de sua empresa. Ha pessoas que dizem que isto é uma injustiça. No mínimo é uma sacanagem.

Uma frase de Nietsche que mostra bem este espírito soberbo e meio carrancudo. Ele dizia que o sagrado, não importa o momento, não permite o riso. Se desculpa pelo fato dele ter sido o rei do pessimismo mas acho que a maior virtude do ser humano é a capacidade de rir dele mesmo. Isso demonstra uma grande humildade.

Mas eles não fazem isso apenas por pura maldade. Às vezes são ingênuos. Não percebem a diversidade planetária, uma coisa não tão difícil de constatar. È preciso humildade, uma commodity meio desconhecida nessas paragens.

Um recente relatório do PLoS Biology Journal diz que há umas 8.9 milhões de espécimes de organismos vivos diferentes na terra, sendo que dois terços estão em terra e um terço nas águas. E apenas conhecemos uns dois ou três por cento deles e muito provavelmente nunca chegaremos a conhecer todos eles.

Se sabemos tão pouco sobre o nosso planeta, qualquer soberba, mesmo que inconsciente, soa ridícula.

E voltamos a pergunta chave. O que nos inspira, o que detona a nossa sensibilidade, o que marca a nossa vida?

Como disse, o relacionamento humano joga um importante papel mas também é verdade que a leitura de certas obras nos emociona e servem de exemplos em termos de comportamentos e visões de mundo, mas não somente os clássicos mais conhecidos como os sempre citados Homero, Dickens, Tolstoi, Balzac e Voltaire, que muitas vezes não conseguem transmitir a grandeza de seus relatos por diversos motivos. Somos mais tocados, por assim dizer, por outras obras. Um verso do Neruda, uma passagem do Veríssimo, o pai, uma estória do Jorge Amado, um poema do Vinicius, um romance do Garcia Marquez.

Muitas coisas na nossa vida nos tocam, nos mostram grandeza, nos inspiram e sim é verdade, os livros são importantes.

Mas as vezes um simples gesto de nossa mãe, de nosso pai, as vezes um pequeno exemplo, um corriqueiro fato nos inspira e nos marca para o resto de nossas vidas. E as vezes do nada, uma fé toma conta do nosso espírito e muda o nosso destino.

O que eu sei é o seguinte. Se vc não considera o teu semelhante um igual, os teus valores estão errados. E a melhor maneira de estabelecer essa igualdade é praticar a humildade, uma coisa não muito natural e meio esquecida hoje em dia.

Porque se há uma coisa em comum nestes personagens que nos inspiram ou que nos emocionam é exatamente a humildade.

Uma coisa que falta nas pessoas que por alguma razão não temos nenhuma consideração.

Anúncios
Posted in: OPINIÃO