A aldeia

Posted on 04/09/2011

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Chovia canivetes na contra mão como se diz na Suíça o país dos canivetes. Mas esta chuva em particular se derramava muito longe das pacatas e ordeiras paisagens da Suíça.

Chovia na Amazônia, em uma pequena aldeia perdida do mundo.

Chovia na verdade em toda a floresta em volta mas na aldeia havia testemunhas castigadas pelo toró que podiam narrar o acontecido.

Era muita água que caia sobre a pequena aldeia de Santo Amaro do Descampado. A aldeia era cercada de densas florestas e seu nome deve ter sido dada por algum desbravador cego ou algum poeta descaminhado. Mais mata fechada que aquela impossível e o único descampado que por la existia era a lustrosa careca do Dr. Fadulco, a sua excelência o Prefeito. Também o delegado e o pároco local.

 

Dr. Fadulco tinha aportado a este fim de mundo montado em um burro vindo ninguém sabe bem de onde. O burro era sua única testemunha e mesmo em Santo Amaro do Descampado, burros não costumam contar seus causos.

Ele tinha chegado como a mesma roupa escura, elegante mas gasta pelo tempo que ainda hoje desfilava a sua severa circunstancia.

 

Neste denso descampado ninguém sabia muito bem de onde as pessoas vinham. Não tinha nenhum atrativo e nem era fim de nada, apenas fim de mundo. Os poucos caboclos e caboclas que por la moravam eram seringueiros ou doces indolentes. O rio era generoso e abastecia de pescado de varias procedências e nomenclatura os habitantes, todos os dias e as frutas exóticas e algumas verduras que a natureza cultivava completavam a alimentação da pacata aldeia.

Era apenas uma rua, uma praça e pouca casas de madeira e zinco banhadas por um dos inúmeros afluentes misteriosos e perdidos do Amazonas.

Dr. Fadulco não teve problema em impor a sua autoridade com sua voz de trovão e seu inseparável colt 38 que garbosamente usava na cintura e nunca o abandonava.

Todos os domingos atendia a missa das dez e seus sermões empolgados e sua voz soturna e poderosa junto com o revolver no coldre, era um senhor argumento que atemorizava os fiéis. O demônio não tinha vez naquelas paragens.

 

Aos sábados tinha sempre um forró animado quando as moças rodopiavam em torno dos caboclos desdentados sob a severa supervisão do Dr. Fadulco que também era o DJ. Tinha trazido um aparelho de som antigo que ainda funcionava com válvulas e que era alimentado pelo moinho de água e vento que iluminava as poucas luzes da aldeia.

 

No forró, por causa do alto consumo de energia, se apagavam todas as luzes da aldeia e só as do forró iluminavam a fugaz alegria. As musicas eram mais antigas que a bíblia mas para a aldeia isso pouco importava.

E quando tinha qualquer altercado ou quando algum caboclo se assanhava algo demais, ia direto pra cadeia que não tinha porta, apenas a força moral do Dr. Fadulco. O seu 38 também era importante além de sua proverbial pontaria e do seu gatilho rápido e fácil. Não hesitava em fazer valer a sua autoridade a base de tiros certeiros.

 

No domingo os poucos e arrependido presos saiam pra se confessar com o Dr. Fadulco, recebiam a absolvição divina, comungavam e voltavam à prisão pra sua breve condenação humana.

As segundas voltavam todos aos seus afazeres com a absolvição absoluta.

 

As chuvas era recorrentes naquele ermo esquecido de Deus. Eram pontuais. Chovia sempre depois do almoço e depois parava e todos podiam dormir suas sestas com o matraquear constante dos pingos nas folhas e tetos de zinco.

Mas esta chuva particular já durava três longos dias. Era muita água e a festa do sábado corria o risco de ser cancelada. O arraial não tinha teto, apenas as estrelas e às vezes a lua. Em compensação não haveria missa, sempre rezada à beira do rio na sombra de um impressionante baobá ou alguma outra arvore gigantesca. Na Amazônia vc nunca sabe que porra de arvore é aquela. É muita arvore diferente, mesmo porque os habitantes davam nome às arvores que tinham alguma função, assim como qualquer acidente geográfico. Essa gigante tinha o nome de domingueira. As duas arvores que se destacavam no arraial eram Leandro e Leonardo e a arvore da pequena praça era Trepadeira mas a chamavam de Cupido quando o Dr. Fadulco estava por perto. Tinha uma outra, bem afastada, que chamavam o cagador por razões obvias. E a mais importante de onde se extraia o licor de Jenipapu era chamada a boca pequena de Marlin Monroe.

 

Esse batismo informal da natureza era uma das alegrias dos habitantes de Santo Amaro do Descampado. A outra era a cachaça de Jenipapu extraída da Marlin Monroe, uma água ardente de ótimo sabor e alto poder alcoólico consumida com avidez e desmedido prazer que  o Dr. Fadulco mantinha sob severa guarda.

Oficialmente só se podia beber no Forró dos sábados mas essa proibição era, claro, desrespeitada nas sombras e desvios do severo olhar do Dr. Fadulco.

 

A vida é assim, pensavam todos. Uma alegria e uma tristeza.

Yin yang dizia o dono da mercearia local que também era o dentista e o medico da aldeia. Um chinês que não entendia porra nenhuma o que os caboclos falavam. E nem os caboclos entendiam o que ele falava.

Melhor assim. Não queriam nem saber de que eram feitos os estranhos sucos amargos com alguma coisa que se mexia la dentro, emplastros e pomadas de cheiro horrível que eram aplicados nas diversas doenças e mal de alguns.

 

– xpyan fuizinhug eimayzin fymanchinlopang ouhailei

– ta bom Lee. Essa porra é pra beber ou passar nas costas?

– kotas, kotas auweilei xinantong zufunchulei!!!

– E esse cheiro é assim mesmo? Cheiro de cu…

– cu noooooooo. Kotas, kotas. zufhunchuleiiiiii

– Ta bom Lee, nas costas. Passar nas costas….

– zufhunchulei, zufhunchulei.

– Ta bom, zuvunzulei nas costas

– si, si, kotas, kotas

 

Fora alguns efeitos colaterais nada graves, as pomadas, os emplastros e as estranhas bebidas do aprendiz de Fu Manchu funcionavam bastante bem. Os índios que eram quem poderiam ensinar o uso da flora local, a única coisa que faziam é acertar de vez em quando com suas zarabatanas algum imbecil que ousasse se aventurar nas suas terras. Isso se devia ao fato de que alguns antigos exploradores alemães e franceses tinham usado as índias locais como suas namoradas e o nascimento de alguns pimpolhos altos de olhos azuis e mal humorados não tinha caído muito bem na comunidade Indígena.

Eram fraternais inimigos de todo homem branco. E se fossem altos de olhos azuis tavam fudidos.

 

Fora esses incidentes de respeito desrespeitoso, a vida na aldeia corria com vagar e boa letra.

 

O personagem mais folclórico e interessante era o Hans Von Demetrich, um austríaco que pra sua sorte era baixo, olhos negros e tinha uma cor de pele meio escura. Estava a salvo dos furibundos índios da selva. Seu pai era originário do Sudão e sua mãe era uma Austríaca, missionária que tinha se apaixonado pelo Rudolf, seu pai, há muitos anos atrás assim contava ele ou assim os caboclos entendiam.

Hans era um sujeito de uma erudição e de uma inteligência rara e claro, era o professor da aldeia. Corria a voz pequena que tinha sido um criminoso na sua juventude e tinha vindo se refugiar neste fim de mundo para escapar da justiça de seus perseguidores. Outros diziam que tinha roubado um banco, foi preso e escapou, vindo parar aqui pra se esconder. Nenhum lugar melhor pra se esconder do que Santo Amaro do Descampado. E outros diziam que ele era um dos filhos bastardos dos Índios e que tinha sido levado pelos seus país, se educado no mundo la fora e voltado pra Santo Amaro do Descampado com saudades da isolação, cansado do insensato mundo.

As fofocas eram um dos melhores passa tempo da pequena aldeia e quando o consumo de Jenipapu escapava por uma noite da severa vigilância do Dr. Fadulco, as estórias se enriqueciam com a imaginação solta e assim nasciam as lendas.

 

Era um lugar tão atrasado que a missa ainda era cantada em Latim e computador era assunto pros emplastros do Dr. Lee.

 

– Sr. Hans?

– Yawol Herr Fadulco. Como estarrr?

– Eu estou bem. Um pouco molhado por esta chuva

– Yaaa. Xuva muita loca. Muita água cairrrr.

– Vc tem alguma explicação? Ta chovendo há três dias sem parar.

– Yaaaaa. Os ástras…

– Ástras? Que diabos é isso

 

Hans morava na aldeia havia três anos mas ainda não sabia falar muito bem o Português. Ele falava mais com os índios e era o único que não era alvejado pelas mortais zarabatanas. Trocava informações com os silvícolas e aprendeu muita coisa da floresta, dos bichos, da terra e das lendas e ensinava de volta muitas coisas do cosmos, das estrelas, do Universo e dos átomos.

 

– Ástras no zéu

– Vc quer dizer astros?

– Yaaa, ástras

– O que tem os ástras, quer dizer, os astros?

– ástras cair, ástras cair

– Porra Hans o que ta caindo é chuva. Muuuuuuita chuva. O que as ástras tem a ver com esta merda?

– Ezplika, ezplika. Kosma muitas ástras. Uma ástras grandona vir aki e tudo puta que parrrriu. Ahahahahahahahaha!!!!!! Na tempa das dinosaurias um grande ástras kaput tuda. Lembrrrra? Lembrrra? Kaput, kaput, tudo puta que parrriu. ahahahahahahahahaha.

 

Hans adorava esse expressão.

O Dr. Fadulco o recriminava sempre. Esta era uma aldeia de respeito. Palavrões estavam proibidos e não seriam tolerados. O vernáculo tem que ser respeitado. Um pecado, e todos respeitavam a ordem esdrúxula na sua frente. Nas costas era outra coisa e não era só o vernáculo que era desrespeitado. As caboclas eram alegremente desrespeitadas com um amplo e irrestrito consentimento delas, diga-se de passagem.

 

A única exceção para a agressão sem cerimônia do nobre vernáculo era o Hans.

Dr. Fadulco tinha perdido todas as esperanças.

Hans era um rebelde, um anarquista e uma ótima figura além de uma rara inteligência e erudição que faziam as delicias dos longos papos ao entardecer que costumavam varrer as madrugadas. Isso aliado ao excelente licor de jenipapu que o Hans sorvia e oferecia em generosas porções longes dos olhares curiosos, mas não das fofocas. Eram entardeceres de alegres conversas onde se misturava o aroma de um excelente tabaco que perfumava todo a grande varanda do Hans enquanto o sol se punha e as estrelas acordavam e tornavam os dias e as madrugadas mais tolerantes.

 

Ao Hans era tolerado os palavrões, mesmo porque esse era o único que ele falava e com ele o Dr. Fadulco se permitia um linguajar mais chulo.

 

– caralho Hans. Olha o linguajar

– ya, ya, tudo puta que parrrrrriu

– ta bom Hans vamos com calma.

 

Hans estava possesso e ria muito. Algo não combinava e nem o excesso aparente do velho e bom licor de Jenipapu poderia justificar tal desvario.

 

– Vamos la, me explica essa zorra. Que ástras vc ta falando?

– Zplika, zplika…vamus tomarrr jenipapu primerrrra, yaaa?

 

Era hora da sesta e não tava na hora ainda da cachaça. Mas como chovia canivetes sem previsão de parar e como o Dr. Fadulco não tinha a menor intenção de ir a nenhum lugar e se molhar todo, aceitou o convite.

 

– Ta bom, Hans. Mas só um gole. Ta cedo ainda. Um gole só.

 

Isso era uma deslavada mentira. Ninguém bebe um gole só e mais ainda de licor de Jenipapu e muito mais ainda na companhia do Hans, um porrista emérito. A chuva intensa ajudava a pequena infração.

 

– ya, ya, ya, uma gole só ahahahahahahahahah….

 

Hans estava visivelmente de porre. O que mais tinha pra se fazer nesta merda de chuva?

 

– ástras grondona vir atrasss xuva. Primerrra xuva. Depos venta, muita venta e depos cataplum. Alll kaput. Tudo puta que pariuuuuu, ahahahahahahahahahahahahaahah

– Pera ai Hans. Tu ta dizendo que um astro vai cair nesta merda de lugar?

– ya,ya,ya, alll kaput ahahahahahahahahaha

 

E la se foi o Hans buscar mais licor de Jenipapu no seu enorme galpão que ficava ao lado.

 

– Esse chucrute é um porra louca.

 

Dr. Fadulco ficou bebendo seu licor que ainda tinha no seu longo copo de cristal. Hans tinha belos copos de cristal. Deve ter sido herança de alguma época de fausto.

 

– Traz tabaco Haaaaaaaans

Berrou Dr. Fadulco.

 

Hans estava imóvel no meio da chuva, olhando o céu, com olhos esbugalhados todo encharcado e com duas garrafas do precioso licor de Jenipapu.

A chuva parou do nada. E veio um vento forte empurrando umas nuvens baixas e vermelhas saídas do nada, que fez derrubar o copo de cristal que Dr. Fadulco tinha deixado por um instante na pequena mesa do seu lado.

 

Nesse ano do Senhor, um grande meteoro atingiu a bacia do Amazonas com um impacto 10 mil vezes maior que o meteoro que devastou os dinossauros e devastou toda a vida no planeta.

 

 

Alguns bilhões de anos depois no ano 3024 da era Pitona.

 

Os arqueólogos trabalhavam nas ruínas desse pequeno Oasis no meio de um vasto deserto, há três meses. Tinham conseguido escavar a uma boa profundidade e tinham retirado estranhos objetos que mexiam com o imaginário. Para certos arqueólogos, a imaginação é o melhor instrumento.

O portátil e extremamente sofisticado aparelho que media a antiguidade dos objetos estava linkado com o super computador que orbitava a terra a uma distancia considerável onde antes se calculava que tinha existido um satélite natural do planeta. Uma espécie de lua. O super laboratório totalmente automático analisava e calculava a época dos objetos, mandando dados em minutos.

 

– Caceta. Este estranho artefacto do que parece ser uma espécie de mineral de cristal tem uma delicada estrutura e um desenho que não é natural e segundo o computador cósmico, data de aproximadamente uns 2 bilhões de anos atrás. Eu diria que é uma parte do que seria uma espécie de copo. Um copo de cristal.

 

– como? 2 bilhões de anos? Impossível. Não havia civilização nessa época. O primeiro homem surgiu há uns 10 mil anos. Impossível. Vc em certeza? Nem tinha nenhum tipo de vida nessa época…

– absoluta. Três vezes mandei as dados e três vezes vieram com o mesmo resultado.

– Vamos esperar esta chuva passar e voltar pro espaço e tentar decifrar isso…

– Pois é, chove há três dias….que estranho…..

 

E a chuva parou do nada. Um vento forte começou a soprar…

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Posted in: ASSIM É A VIDA