Um dia em Valencia

Posted on 13/09/2011

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Em Valencia, como em toda Espanha, o mês de agosto é o mês das férias. Há uma espécie de êxodo em massa e a cidade fica deserta e abandonada. Há uma profusão de turistas mas turista não é gente. No máximo é um estorvo geográfico ou um componente econômico. Em qualquer dos casos, um ser impossível de se relacionar.

 

Neste dias, sem nada pra fazer, fugindo das câmeras e dos lugares históricos, me aventuro em exercícios peripatéticos por ruas desertas ouvindo o som dos meus próprios passos em esquinas que mostram solidão e desamparo. Nenhuma viva alma, e quando por ventura encontro alguém, alguma alma perdida, abro um sorriso e me prontifico a falar mas a cara emburrada e de poucos amigos do intruso, provavelmente sem grana pra viajar, espanta qualquer tentativa de diálogo e me encontro de novo vagando solitário por ruelas desertas de vida.

 

Mas sábado de manhã, é dia de acordar tarde, comprar todos os jornais, tomar café da manhã calmamente e de cortar o cabelo, um ato prosaico que ás vezes me submeto, não com júbilo mas por pura necessidade. O vento, um habitante constante desta cidade, teima em modificar a direção dos parcos cabelos tão diligentemente disciplinados de manhã depois do banho.

 

Aqui em Valencia, acordei também com esses ímpetos. Tomei um bom banho, me vesti com roupas cômodas inversamente proporcionais a elegância e desci pra fazer o que de melhor se faz nos hotéis. O café da manhã.

O restaurante estava vazio. Sabia os horários dos guias de turistas e evita-los é toda uma arte. Escolhi uma boa mesa perto de uma enorme janela que mostrava um jardim bucólico, peguei três jornais que estavam expostos, La Razon, El Pais e La Vanguardia e uma simpática camareira me serviu um café com leite quente e de bom aspecto e anotou meu prosaico pedido.

Acompanhando o café com leite, pedi dois ovos fritos com bacon bem crocante, um croissant soberbo, dois pedaços de pão quentinho com manteiga derretida e um pouco de geleia de laranja generosamente esparramadas, um belo kiwi e um suco de laranja feito na hora. Li os Jornais em silencio e sem prestar nenhuma atenção. Café da manhã não é pra ser austero. Satisfeito com o meu começo do dia e ainda ignorante dos acontecimentos fundamentais da raça humana que os jornais tentaram me passar, perguntei a Sandra, uma das belas recepcionistas do Hotel, onde tinha um barbeiro. Meu irmão me diz sempre que não devemos ler Jornais nos fins de semana. Começo a concordar com ele.

A simpática recepcionista me indicou uma pequena ruela, perto daqui onde certamente encontraria muitas opções. Não sei a que diabos ela se referia como opções. Barbeiro é barbeiro. Corta-se o cabelo e pronto. Mulheres é que são mais volúveis e exigem algum grau de especialidade. No meu caso, qualquer um serve, já que tenho escassos fios e o trabalho é rapidamente efetuado. Devia alias, ter um desconto maior pela pouca capilaridade.

O meu pai me contava que um tio nosso, avesso a prosa sempre abundante dos barbeiros, quando tinha que se sentar pra cortar o cabelo e ouvir o bravo barbeiro perguntar a clássica pergunta de como quer o corte, ele sempre respondia:

– Em silencio.

 

La fomos nós, eu e as minhas circunstancias, no meio de desertos de gente, claro. Nenhuma viva alma. Nem gatos. Pombos sim e moscas. Como esta cidade tem moscas. E moscas que te perseguem. Nunca fui perseguido por nenhuma mosca, mas posso jurar ter sido perseguido por uma determinada mosca por alguns quarteirões. Coisa de paixão assumida deve ser. Ou solidão. Banho eu tinha tomado.

 

Depois de um certo tempo vagando, sempre na companhia da aludida e chata mosca e no meio de tapas ao léu que acertavam tudo menos o peculiar inseto, andava pelas simpáticas ruelas cheias de história e arquitetura rocambolesca. Os seus pórticos enormes de madeira maciça e mais velhas que o tempo e seus exíguos e enxutos balcões de ferro, cheios de plantas e uma que outra meia e cueca, em um labirinto de ruelas estreitas e charmosas, dão um certo colorido peculiar a esta cidade.

 

Assim vagando, cheguei finalmente ao meu destino sabatino. Tinha efetivamente umas 6 peluquerias, que é como aqui se chama as barbearias. E todas fechadas. Barbeiro fechado no sábado acho que nem em marte. É como fechar restaurante pra almoço coisas que o restaurante Joaquim e Manoel no rio costumava fazer.

 

Olhando meio desanimado para aquela profusão de portas fechadas, notei com um certo jubilo que havia uma aberta. De  mulher, claro. E eu me aventurei a entrar e perguntar se podiam cometer o prosaico ato de tecer umas bem poucas tesouradas na minha escassa massa de cabelos. Não era hora de ser machista.

O salão estava totalmente vazio, fazendo eco com as ruas. Só tinha quatros meninas, todas rotundas e impecavelmente vestidas com seus jalecos alvos e engomados que conversavam animadamente no fundo do enorme salão, sem nada pra fazer.

Ao me verem entrar, se calaram em uníssono e me olharam como se tivessem visto o anti cristo. Não com tanto espanto, mas com igual surpresa. Me vesti do meu melhor sorriso e fiz o meu singelo pedido de um corte de cabelo. Abriram a boca, espantadas, como se tivesse falado o mais cabeludos dos palavrões e por um segundo pensei que o meu valenciano não muito católico tinha divulgado algum tipo de ofensa.

–         Esto acá es una peluquería de damas

–         Si pero como no. No cortan pelos?

–         Si, pero solo de damas y a usted no le podremos cortar

Expliquei candidamente que era brasileiro e que no Brasil os salões de mulheres costumam receber clientes masculinos que preferem o corte suave dos salões femininos, na vã tentativa de ser digno de receber um corte.

Rio de Janeiro, exclamaram todas. Carnaval, hermosa pero muy violenta. Ta bom, aceitei, não com bom grado, a fama de violenta. Não era hora de polemizar.

Mas não adiantou nada. Não houve jeito e ainda por cima eu não tinha hora marcada, um fato que tornava o meu pedido totalmente impossível de ser atendido.

O salão estava vazio e na improvável hipótese de encostar um gigantesco ônibus repleto de mulheres histéricas e encher o salão, o fato de não ter reserva era irrelevante. Assim pensava eu, mas nos desertos de gente desta cidade, descobri que há também um deserto de lógica. Ou pelo menos uma lógica que eu não consegui entender, o que da no mesmo.

 

Não houve jeito. E munido dessa impetuosa negativa sem sentido, me controlando para não aflorar uma agressividade que faria jus a fama do Rio, sai pro meu destino de eterno vagante das ruelas de Valencia. A mosca pelo menos, já não estava la e escapou de ser trucidada pela minha reprimida agressividade.

 

Triste e na verdade puto por não ter conseguido o meu intento e já procurando algum lugar onde poderia tomar uma bela e gelada cana, o nome do chope por aqui, me deparei com um pequeno cabeleireiro MASCULINO, no fim de um beco meio escuro.

Contente que nem pinto no lixo, pra la me dirigi. Havia um grande cartaz na porta que dizia: Cortamos pelo em 5 minutos. Meio estranho mas não era hora de se surpreender.

Fiz os cálculos e a minha vasta cabeleira certamente levaria menos tempo em ser aparada. E me imaginei com o barbeiro fazendo seu serviço com uma rapidez assombrosa.

Mas não sei porque fui tomado de um súbito medo.

Tenho um apreço por minhas orelhas e a rapidez prometida acho que não teria pontaria ou a habilidade suficiente para só aparar pelos, como eles chamam os cabelos.

Um pronto socorro ao lado com alguns pacientes com cabeças enfaixadas decidiu por mim e segui em frente, já totalmente curado desta idiota ideia de cortar o cabelo.

De volta ao discreto charme da solidão das ruas.

Um pouco mais a frente, umas belas mesas impecavelmente postas, me convidavam ao deleite de uma bela cana gelada. O nosso bom e velho chope. As mesas são tão impecavelmente postas em todos os bares e restaurantes de Valencia, que as vezes até te inibem e parecem estar esperando a Rainha da Inglaterra e sua corte.

Mas qual o que. Vc pode perfeitamente sentar, pedir uma água sem gás ou um prosaico café e ficar horas, sem mais nada e ser atendido com cortesia e alegria. Ponto pra eles.

Sentei na varando onde uma suave brisa soprava e levantava umas solitárias folhas caídas sabe-se la de onde.

 

Pedi um chope ao solicito Garçon e uma brisa mais forte desalinhava os meus queridos e parcos cabelos, criando uma mini revolução na minha cabeça e distraidamente tentei me pentear com a mão.

 

– Necesita um corte de pelo senhor.

 

Exatamente.

Ao lado, um casal de japoneses com suas câmeras sorriam provavelmente de desespero por terem se perdido de seu guia.

Que diabos.

Beber sem conversar não tem graça

Pedi mais um chope.

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