O bom canalha

Posted on 19/11/2011

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Lendo a excelente crônica do Francisco Bosco, um sujeito que escreve com inteligência e propriedade o que é muito dizer no cenário medíocre e burro dos colunistas dos Jornais, ele tece considerações sobre corrupção, invasão das favelas e Brasília. Ele já tinha escrito sobre preconceito e nessa crônica eu discordei dele em um aspecto. Ou talvez não tenha discordado mas me incomodou um aspecto em particular. Os seres humanos são divididos culturalmente e geograficamente em varias etnias. Temos uma tendência natural a rejeitar seja por medo ou por outra causa qualquer, o ser desconhecido. É o medo que tem uma maior influencia no nosso comportamento com o desconhecido. Daí pra discriminação é um passo. Nós nunca descriminamos um sujeito conhecido. Um amigo pode ser branco, preto, amarelo, azul de metileno, rico ou pobre e se for amigo, se for conhecido, se for próximo, ele não é discriminado. O conhecimento e a proximidade gera respeito. Essa é a base da civilidade. Eu não tenho que respeitar os gays ou os pobres ou os pretos ou o estrangeiro. Eu tenho que respeitar qualquer um, independente de quem seja. A educação desse ponto é o fundamento da civilidade.

Gostar é uma outra estória. Eu gosto dos amigos.

Mas o Bosco comentava a ocupação das favelas e fazia um interessante contraponto com Brasília e seus casos de corrupção. O que se constata é algo obvio. Não existe vácuo, nem no espaço. Quando ha um abandono sempre algo ou alguém ocupa o espaço abandonado.

É inteligente a sua observação da escolha moral e uma arguta observação da capa da Veja. È sutil e inteligente e muito bem observado.

Eu acho que não se ensina moral e nem se ensina ética. São valores que vc adota e fazem parte da tua vida de acordo com as circunstancias que compõe a vida de cada um. O que molda o nosso comportamento é a maneira como a vida se manifesta em nós, seja culturalmente, geograficamente ou animicamente.  O Nem trafica, vende drogas, manda matar, quebra a lei, mas ao mesmo tempo se preocupa com a escola dos filhos e faz uma serie de benesses na sua comunidade. É bobagem e uma perda de tempo criticar esse comportamento porque ele invariavelmente vai estar contaminado por uma moral e uma ética que é pessoal. E as vezes cínica.

A questão é outra. Nós temos que nos preocupar constantemente em estabelecer regras que facilitem o meu respeito e solidariedade para com as pessoas a minha volta.  Eu não posso quere idealizar o ser humano partindo da minha visão de mundo e valores. Eu tenho que respeitar a todos, o que sempre faço, e aprimorar as regras de convívio que facilitem este respeito. Mas sem idealizar.

Quando a grande mídia mostra os casos de corrupção, quando estampa os escândalos, a roubalheira, não esta preocupada em criar valores e nem é esse seu papel. Há um grande contingente de pessoas que trabalham e ganham seus salários e não roubam. Há idealistas porque o ser humano é basicamente um idealista. O roubo e desvio de dinheiro publico é algo detestável? Claro que é. Mas também o fato de um empregado ganhar um salário mínimo e seu patrão ser um sujeito de poses. O sistema é assim. A tua moral e a tua ética é circunstancial e sujeita a mudanças que nem vc mesmo controla. Ela depende das necessidades de tua vida e das circunstancias, dos fatos que acontecem com vc. Achamos que não deveria ser assim porque idealizamos um comportamento puro e imune. Não é assim e Freud já nos mostrou isso. Somos seres essencialmente bons. Eu acredito nisso. Mas somos seres imperfeitos sujeitos a mudanças de comportamento que mudam essa condição inata de bondade. E não entendemos isso, e pior, não aceitamos.

Dapíeve, colunista do Globo, escreveu há pouco sobre o Nem e sobre uma entrevista onde ele mostra seu lado humano e bom.O colunista faz uma observação interessante sobre esta faceta do bom bandido. Aprendemos e sabemos lidar com bandidos cruéis porque elas fazem o que se espera de um monstro, mas não sabemos lidar com um bandido que mostra seu lado humano, quando na verdade seres humanos somos todos. E somo todos capazes de fazer qualquer coisa, não vamos nos enganar. O que nos freia não são os valores ou a nossa moral. São as circunstancias. E isso é fácil de constatar. Quando vc pensa, quando vc raciocina, quando vc tem a chance de escolher, os valores éticos de cada um são a base de toda decisão. Mas as circunstancias nada tem a ver com o pensar. Nem sempre podemos escolher ou melhor, nem sempre temos opções. Não podemos nunca esquecer que o instinto mais poderoso em nós é o instinto da sobrevivência e por ele somos capazes de fazer tudo. O que fazemos constantemente para lidar com esse nosso instinto é estabelecer regras de conduta que permitam vivermos em sociedade com respeito ao nosso semelhante. A base de toda educação civil é essa.

 

A questão é saber que toda ação nossa pode ser mudada e consertada. E nunca jamais desistir de nenhum ser humano e achar que não tem jeito. Sempre tem.

 

Agora tem uma coisa que eu detesto e que nunca sou. Cínico. E por cinismo digo achar que sou eu o certo, o justo, o puro e que as sacanagens são algo dos outros. Não é. Para constatar isso basta um espelho de boa qualidade. Uma boa dose de humildade também ajuda. E claro, a total falta de cinismo explicito.

Canalhas somos todos, em circunstancia diferentes da vida que as vezes não controlamos. Mas também somos todos excelentes caráter, gente de bem, também influenciados por circunstancias que não controlamos.

O resto é manchete de jornal. São versões, interpretações fantasiosas. Os fatos são outros.

É assim.

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Posted in: OPINIÃO