A crise na Europa do Cleofantas

Posted on 24/04/2012

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O meu primo Cleofantas era um economista formado nos Estados Unidos e assassino profissional nas horas vagas que eram muitas. Desta vergonha ele nunca se recuperou e um dia abandonou a economia. Nunca mais emitiu nenhum prognóstico sobre o destino da humanidade que se mostravam absolutamente certos não fosse por um pequeno e insignificante detalhe. O elemento humano e os fatos que teimava em contrariar suas previsões e jogavam por terra seus complicados enunciados. Matar gente fazia mais sentido e, além disso, pagavam melhor.

Um dia ficou de saco cheio de matar gente também e hoje vende pepinos na feira e é muito feliz

Cleofantas sempre foi um cínico e brigava contra os fatos. Sempre foi um burro endêmico. Parecia inteligente, mas era burro, melhor que alguns de seus colegas que parecem burros e são burros mesmo.

Foi inclusive escolhido como uma das cem mais influentes personalidades do mundo em algum ano que não vem ao caso, por uma prestigiosa revista que atende pelo nome pomposo de Tempos, seja la o que isso quer dizer. Foi a mesma revista que colocou o Hitler na sua capa em 1938 e a mesma revista que patrocinou a candidatura ao Prêmio Nobel da Paz do mesmo personagem, uma pequena falha existencial.

Agora que se aposentou, Cleofantas esta mais lúcido e faz interessantes observações que na verdade rouba de suas obesas e rotundas clientes que lhe infernizam o saco com sua teses sobre o mundo. Tem dias em que tem saudades de seu passado. De economista que assassino ele ainda é. Só que hoje é amador.

Mata por puro prazer.

Como é família, ou ele assim diz e quem sou eu pra contrariar, o encontro as vezes. E me comentava ele que uma cliente em especial, uma senhora que comprava os mais reluzentes pepinos (insistia em que fossem reluzentes, não sei pra que), dona Bulufas, entre a falta de troco proporcionada pela menção de pagar com uma flamante nota de cem reais, coisa que o Cleofantas há muito não via e a dificuldade em encontrar alguém que tivesse troco, começou a tecer comentários sobre a recente crise na Europa.

 

– A crise que se abate sobre a Europa, para grande surpresa de muitos não se restringia somente aos escândalos eróticos do Berlusconi, a imagem moderna do fauno de Goethe.

E apreciava falicamente um enorme e reluzente pepino da barraca do Cleofantas.

– Uma vez este personagem bufo fora de ação, continuava a Dona Bulufas, a crise se mostrou com todos seus dentes, calcinhas e demais apetrechos.

– Um minuto que já, já consigo seu troco. Aceita levar mais alguns pepinos?

– Só os mais reluzentes. A crise tem outros culpados que são mais indecentes que o coitado do Berlusca que fora o fato de poder comer melhores e mais apetitosas ninfas na sua condição de primeiro ministro se locupletou ao poder por razões privadas de seus negócios. Isso sem falar na crise dos Estados Unidos e do banana do Obama.

– Olha a banana ai, geeeeeente

– Pronto, aqui esta seu troco.

Mas quem parava a patusca Dona Bulufas. Uma pequena aglomeração de compradores de outros produtos da horta se formava em torno da modesta barraca do pobre ex-economista Cleofantas.

– A crise europeia, como todas, é dos investidores e do livre mercado que ainda tem seus defensores, acreditem, principalmente entre os ricos. Na crise, os ricos tem que decidir entre comer uma ou duas colheres de caviar e nesta duvida cruel acabam comendo três. A crise se deve a falta de controle dos mercados financeiros. Se o pessoal pode tudo e ninguém controla nada, acreditem, eles farão tudo, até vender papel higiênico usado com se fossem bonds divinos. E foi o que fizeram. O resultado já estava nos papéis higiênicos vendidos. Uma grande merda. O resto é analise pernóstica de economistas que nada tem o que fazer.

Cleofantas enrubesceu com esta observação. Na verdade ninguém sabia do seu negro passado.

Dona Bulufas se empolgava e agora brandia um dos pepinos reluzentes que tinha tomado emprestado do Cleofantas.

– Todos os países da Europa como todos os países do mundo, têm seus ativos físicos, que são as suas riquezas e tem seus ativos nas pessoas que são os que trabalham. Nada disso se perdeu. Continua tudo la. O que se perdeu foi a percepção da capacidade de financiar essa bosta toda. Mas se pensarmos bem o que é financiamento? È um dinheiro que tomamos emprestado baseados nos nossos ativos e na nossa capacidade de trabalhar, certo? Isso continua intacto. O que se perdeu foi uns papeis que nada valiam originalmente e que no final nada valem e que foram emitidos como garantia de empréstimos, tomados por ricos e espertalhões, para comprar mais papeis que nada valiam. A verdade é que o que foi tomado como empréstimo, a grana grossa que os bancos emprestaram, foi usada não para financiar o trabalho e o comércio dos ativos dos países. Foi usado para comprar e vender mais papeis inventados de alguns espertalhões que deixariam o Maddoff no chinelo. E inventaram porque quem devia controlar não controlava nada. Usaram a brecha do livre mercado. E deu no que deu.

Fortes aplausos se ouviam. Assovios e uma que outra voz poderosa que bramava:

– Cala a boca palhaça.

Dona Bulufas não se imutava. Estava possessa na sua nova vocação panfletária.

– A solução? Simples. Decreta que os tais papéis nada valem, coisa que originalmente nada valiam mesmo. O que vale são os ativos dos países e o trabalho de seus cidadãos. E passa a controlar com mão de ferro o financiamento desses ativos e desses trabalhos para que a economia volte a funcionar. E deixa quebrar quem tem que quebrar. Os irresponsáveis que se meteram sozinhos nessa confusão toda. È preciso coragem politica para fazer isso, coisa que nada tem a ver com os políticos, de uma forma geral. Alias, coragem é um adjetivo que não conjuga com os políticos. A coragem dos políticos só existe quando é preciso matar e suprimir alguns seres humanos. Eu chamo isso outra coisa. Canalhice explicita e os livros de história estão cheios disso.

– Olha a bolsa, gritou um vendedor de bolsas. Claro, ia gritar o que se bolsas não vendesse?

– E claro tem os índices da bolsa que os telejornais e a mídia em geral do mundo dão um destaque de capa da playboy. Me diz uma coisa: o que merda eu tenho a ver com a bolsa ou com a cotação do dólar?

– Vai uma bolsa ai, freguesa?

– È claro que sempre haverá um douto professor de economia me dizendo pernosticamente que a bolsa reflete a economia do meu dia a dia e que a cotação do dólar tem a ver com o preço que eu compro ou vendo estas merdas de pepinos.

– Epa, pera la. Os meus pepinos são reluzentes, protestou debilmente mas indignado o Cleofantas.

– Ou seja, são ambos fundamentais para a minha vida. Assim imaginam eles. Mas convenhamos: economistas não são pródigos em imaginação e portanto a opinião deles e merda é a mesma coisa. A bolsa é um antro de especuladores que vendem e compram ilusões que eles mesmo fabricam. E o dólar é também um antro de especuladores. Saber a quantas andam estes mercados em nada melhora ou piora a minha vida. Agora tem o seguinte: a percepção dessa realidade influencia e contagia a vida econômica do meu entorno. E não deveria. Sim, porque o jornaleiro da esquina comenta que a bolsa subiu ou desceu ou foi pras picas. E ele nem sabe que merda isso quer dizer. A boteco onde eu gasto o meu parco latim ta pouco ligando se a bolsa subiu. Eu, em casa, estou mais preocupada com o meu marido e outras subidas mais aparentes. Alguns economistas irão especular que a saúde da bolsa ou do dólar tem influencia direta sobre a minha digamos preocupação sobre esta ascensão ou no mínimo pelo lado financeiro desta suspicaz paquera. Porra nenhuma. A deles talvez. A minha não. E sabe porque?

– Porque tu é puta, gritou um gaiato que passou e não tinha ouvido a conversa toda.

– É isso mesmo, tu é puta, gritaram os que tinham ouvido a conversa inteira.

Começou o sururu na feira. Um pequeno tumulto e os primeiros objetos que começaram a ser lançados contra a Dona Bulufas foram os pepinos, reluzentes ou não, do meu primo Cleofantas.

Foi uma merda geral e o pior é que a Dona Bulufas se retirou indignada com a falta de classe e grosseria daquela turba ignara e nem pagou pelos reluzentes pepinos que já tinha comprado.

Pegou o troco e foi embora sem dar a nota de cem que estava na sua mão, esperando o troco.

Moral da estória.

A crise da Europa tem influencia sim no cotidiano. Pelo menos no cotidiano do Cleofantas, ela teve.

Coitada da Dona Bulufas. Acho que se tornou a cliente do meu primo na sua atividade amadora.

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Posted in: ASSIM É A VIDA