Agripino o filósofo

Posted on 27/04/2012

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Agripino é o filósofo da turma. O único que lê ou pelo menos o único que lê outras coisas que não as aventuras da Marquesa Bunduda, um folhetim de sucesso de época que o jornaleiro vende meio malocado. Vem com picantes ilustrações. É sacanagem pura e na verdade ninguém lê merda nenhuma. O que faz o deleite da rapaziada são as ilustrações detalhadas das partes anatômicas da Marquesa Bunduda, uma potranca, na definição chula do Anastacio, o canalha da galera.

 

Agripino tinha se divorciado e vagava meio perdido pelo mundo. Tinha se amasiado com uma morena não muito gostosa mas que fazia um quiabo com jerimum dos diabos ou divino, dependendo de seus conceito de sagrado, e isso deleitava o estomago nada delicado do Agripino.

 

O Agripino também gostava de beber e quando estava pensando, o que sempre fazia, derramava as suas observações nos ouvidos do Anastacio, o canalha emérito, no boteco da esquina entre putas e porristas de carteirinha. Anastacio não entendia merda nenhuma do que ouvia mas adorava beber nas abas do Agripino.

 

– Não há duvida que o que norteia o nosso comportamento na vida são os nossos valores morais, que determinam a forma como vemos e lidamos com a vida a nossa volta. E isso depende de nossa educação moral, dos fatos e circunstancias da vida que moldaram esses nosso valores morais. O que guiou a construção desses valores?

 

– O meu foi o chinelo da minha mãe.

 

– Nascemos em um determinado entorno que tem la seus efeitos na formação do nosso caráter mas que não é definitivo e as vezes nem sequer fundamental. Um índio que nasceu no meio da floresta ou no meio das planícies pode se tornar um físico nuclear ou um filósofo e assim também um menino favelado de um povoado perdido na Índia ou no nosso Brasil.

 

– Eu nasci no morro do Jumento e a única escola que vi um dia foi quando passei o cerol na professora gostosa de geografia que dava mais que chuchu na serra.

 

– Como não é certo um acadêmico de Harvard ou do MIT ser um sujeito extraordinário e feliz. Temos a natural influencia de nossos pais, irmãos, parentes e amigos e depois vem os professores, o que lemos, o que assistimos o que vivenciamos e todas estas emoções carregam em si um forte apelo a nossa sensibilidade e de alguma forma influenciam o nosso espírito e ajuda a construir o nosso caráter, os nossos valores morais. È difícil entender como se da esta construção, no entanto. Quais são os fatos que nos influenciam mais? Quais os momentos da vida que tem um peso maior e são inesquecíveis? O que detona o gatilho de nossa sensibilidade e nos emociona ao ponto de estabelecer um vinculo forte com esta nova sensação que acabamos de aprender e que se torna por um motivo desconhecido, algo fundamental na nossa vida, nos nossos valores?

Não sabemos.

 

– Pra mim é buceta.

 

– Somos seres que buscamos incessantemente a nossa essência. Procuramos entender quem somos e o que queremos. Procuramos respostas e nessa busca experimentamos tudo conscientemente e recebemos ofertas inconscientes. O que realmente determina as nossas escolhas?

Como nos educamos para fazer frente a tantos questionamentos a este mundo incrível tão misterioso e tão complicado?

Como respondemos a tantas perguntas?

E como nos paramentamos?

Como diabos nos educamos moralmente?

 

– Cu também serve.

 

– Essa é uma discussão que enseja muitas ideias e muito pensar.

Um dos educadores morais são os livros. Não são os únicos mas em muitos eles foram determinantes. O Brasil tem uma taxa baixa de leitura por habitante e isso se deve a varias razões mas nem por isso eu considero que a nossa educação moral é baixa.

 

– Ohhh Mané. Manda umas sardinhas ai.

 

– Mas há uma interessante vertente nos livros. Os americanos e os Europeus sempre foram leitores habituais. A taxa de leitores por habitantes tanto nos Estados Unidos como na Europa é superior a todos os povos desenvolvidos do planeta e é interessante observar que nem por isso eles tem uma maior sofisticação ou educação moral.  Eles acreditam que a leitura dos clássicos é um bom caminho para a formação moral, Norberto Bobbio, o escritor e filósofo italiano já tinha escrito um pequeno livro sobre a importância de ler os clássicos.

 

– Falando em clássico, tu viu o último no Engenhão? Juiz ladrão…

 

– Agora, Hubert Dreyfuss um professor de filosofia da Universidade de Berkeley na Califórnia e um outro professor de filosofia de Harvard, Sean Dorrance Kelly, se juntaram e escreveram um livro chamado “All things shinning: Reading the Western Classics to Find Meaning in a Secular Age” , uma bela discussão sobre o sagrado e o profano. O que o filósofo romeno Mircea Eliade já discutia há tempos no seu excelente trabalho o Profano e o Sagrado. Isto em si da uma bela e extensa discussão. Ele até propões um termo que exprime o seu pensamento. A Hierofania.

 

– Hiero que?

 

– Quer dizer, segundo ele, a manifestação do sagrado e como isso influencia a nossa forma de pensar.

 

– Oh Mané, mais uma Brahma gelada ai…

– Acabou a Brahma. Serve a Antártica?

– Nessa altura do campeonato serve qualquer merda. Manda ai.

 

– O interessante notar é que apesar de termos os nossos valores morais e os exercermos nas nossas ações cotidianas, a justiça nada tem a ver com valores éticos. A justiça que é na verdade o único poder que nos julga e nos penaliza pragmaticamente tem a ver com as leis. E tem a ver com as leis especificas de cada ação pelas quais estamos sendo julgados e depende do lugar onde estamos. Ha culturas onde o incesto e a traição são toleradas e há outros onde há castigos físicos meio brutais que podem levar até a morte. Apedrejam os cônjuges infiéis.

 

– Caceta. Eu já estaria enterrado embaixo do Everest.

 

-E isso serve para toda ação da humanidade ao longo do tempo. O processo histórico quando julga um acontecimento, quando estipula um juízo de valor o esta fazendo ou deveria fazer levando em consideração, a lei e a lei da época em que o fato aconteceu.

 

– Ohh Mané. Essa sardinha ta uma bosta

 

– E aqui acontece um dado que esta nas principais manchetes da grande mídia, esta espécie de amontoado de noticias que nada tem a ver com a realidade. E nem é essa a função da grande mídia. Ela nunca esteve minimamente preocupada com a verdade e nem muito menos com os fatos. A versão é sempre, pra eles, muito mais interessante. Vende mais.

 

– Eu soube que a Crimelda ta dando o cu. Isso é fato

 

– Mas alguma coisa tiramos disso. Porque estas manchetes mexem no imaginário popular e daí nascem filosofias e costumes oriundas das criticas que fazem coro ao que se noticia. Não temos nenhuma informação fidedigna sobre os fatos mencionados mas isso não impede de se estabelecer verdades mentirosas ou se quisermos ser menos drásticos, imaginativas.

 

– E parece que o corno do marido é viado

 

– È uma necessidade humana estabelecer verdades. Nos sentimos mais cômodos tendo uma opinião segura sobre qualquer fato. E nos apegamos a estas verdades com unhas e dentes. Mas como estas verdades se criam nos nossos corações? Na maioria das vezes de uma forma superficial. Não nos damos o trabalho de ir fundo nestas verdades presumidas. Não pesquisamos mesmo porque não temos tempo. È mais cômodo acreditar o que lemos. E daí passamos a idealizar comportamentos e situações.

Defendemos o Tibete livre, defendemos os direitos humanos em Cuba, vociferamos contra os atentados terroristas e emitimos opiniões sobre qualquer assunto que lemos. Mas não procuramos saber nada e passamos a construir o nosso cinismo. O que sabemos na verdade? Nada. Aceitamos passivamente o que nos vendem, mas não exercemos na nossa vida diária as verdades que defendemos. E isso por uma razão muito simples. Não pensamos. Pensar é um exercício trabalhoso. Um jornalista passa pelo Tibete e emite uma opinião sobre o que ele viu. E daí essa opinião passa a ser a nossa verdade. Idealizamos uma circunstancia sobre Cuba ou sobre qualquer outro pais, baseados em opiniões de terceiros que são no mínimo superficiais e isso passa a ser a nossa verdade. O que diabos este repórter ou conhecido pesquisou? Que trabalho antropológico ele executou? Que dados leu? Quanto tempo passou por la?

Convenhamos que a informação colhida é muito pequena e de maneira nenhuma pode ser considerada séria. Mas isso não importa para o repórter, o articulista ou para o eventual turista acidental. O relatado passa a ser uma verdade absoluta.

 

– Ohh Mané, manda mais desta sardinha de bosta.

 

– E o pior é que essa verdade que defendemos como absoluta, não a exercemos no nosso dia a dia. Porque defendemos o ideal em outras terras para outros povos e porque não vivemos esse ideal aqui?

Isso deveria ser o estopim para uma discussão. Para o livre pensar. Mas não. Não acontece assim porque nesse estopim se baseia em uma verdade que é discutível e isso não é levado em consideração. E não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo no nosso pais emitimos opiniões e estabelecemos verdades baseados em noticias que nos vendem sem nenhuma responsabilidade. E deixamos de pensar. De raciocinar. De duvidar. E nos tornamos todos vacas de presépio. E se ousamos pensar, se ousamos duvidar, se ousamos enveredar por um caminho de originalidade, somos massacrados como reacionários, como comunistas, como prepotentes ou como pueris.

 

– A vaca da Luana, essa eu manjo, Comi muito.

 

– Li recentemente uma reportagem que listava os novos pensadores rotulados pela pesquisa de pensadores da direita. São eles, segundo a reportagem, os que mais influenciam a nossa maneira de pensar. Uma simples leitura nos nomes dos tais pensadores me fez eriçar os cabelos da nuca que alias é o único lugar aonde ainda nasce cabelo na minha especial constituição.

 

– E vc ainda perde tempo lendo, caralho?

– Pois é. Ainda. Sou que nem o Diógenes em busca não de um homem honesto (só achei um Ernesto até agora), mas também pensante. Se for mulher, melhor ainda.

 

– Agora falou bem. Vamos as muiés

 

– As mulheres, assim como os portugueses que tem uma lógica peculiar, tem uma forma de pensar diferente. E isto me fascina. È uma forma diferente de approach, uma palavra inglesa pomposa que quer dizer abordagem, mais ou menos, que meu inglês não é la essas coisas.

 

– Além de serem gostosas pra caralho.

– Nem todas

– Depois de uma cervas, absolutamente todas.

– Talvez vc tenha razão. O que nos falta são mais algumas cervejas. Como dizia o Vinicius, a humanidade esta varias doses abaixo de mim.

– Ohhhh Mané. Manda mais uma cerva gelada.

– Cabou tudo

– como cabou? Que merda de botequim é este?

– Isto aqui não é botequim. È padaria e estamos servindo o café da manhã.

 

Ninguém entendeu como do botequim passamos a uma padaria. Mistério dos eflúvios alcoólicos em demasia.

 

Comemos uma boa média e saímos pra comprar os jornais do dia, nos deliciar com as mentiras diárias do nosso cotidiano e voltar para o aconchego do nosso lar onde certamente receberíamos esporros justificados.

 

“Cortou o bilau do marido traíra e bebum” estampava a manchete do Extra.

 

Precavido, Anastácio resolveu dormir ao relento.

O imprudente Agripino foi ao encontro de sua nêga.

– Faz um quiabo com jerimum dos diabos.

 

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