Agripino e suas percepções

Posted on 06/05/2012

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Agripino tava meio puto nesses dias. A sua nêga tinha ido visitar seus parentes la na puta que o pariu e o Agripino passou fome. Tinha se acostumado de tal forma com os quitutes de sua nêga que não sabia mais comer outra coisa. E além disso sentia falta do sexo farto e sujo. Sujo para os padrões sociais de boa conduta. Ele achava uma delicia. Assim como todos nós. Digo todos nós achamos. Não que tenhamos experimentado a nêga do Agripino. Seus quitutes, sim.

O boteco da esquina era um deserto de almas naquela tarde chuvosa do feriado. Quem ia pra boteco beber em um feriado e ainda por cima, chuvoso? Só os solitários. Agripino era um deles.

O Mané dono do boteco olhava pro Agripino com aquela expressão de muar e nada entendia sobre as filosofias e conceitos que o Agripino não parava de declamar.

– Onde merda anda o Anastacio, aquele canalha?

– Não esta por aqui.

– Já sei Mané. Era uma pergunta retórica.

– Erótica é com o Anastacio mesmo.

– Não é erótica é …. deixa pra la. Manda aquelas batatas que parecem mais velhas que matusalém.

– Foi o Chico que fez. Não sei de matulalem nenhum.

– Fala Gripa.

– Anastacio, meu bom canalha. Uma cerva, Mané, pro Anastacio…

– Tava comendo uma nêga, meu camarada….

– Foda-se a nêga. Tenho mais coisas a falar. Senta ai e ouve.

– que delicia de bunda…

– Porra Anastacio. Como vc sabe que uma coisa é verdade ou não? Cada um tem uma percepção diferente sobre qualquer coisa e é esta percepção se baseia em diversas coisas mas a principal é o instinto. Alguma coisa te diz que isto é verdade.

Todos acham que os Estados Unidos é a maior democracia do mundo. Não é, nem de longe mas a percepção deles mesmo é essa. Eles se acham um país livre e não é assim. A minha percepção dos USA é de um país totalitário onde eu tenho medo de viajar. Nada me garante que terei pleno acesso a todos os meus direitos. Ao contrario e talvez influencie este meu pensar o fato de eu ser la um estrangeiro. E isso conta muito.

– Gringo é uma merda.

– A percepção sobre o Brasil é diferente. Eu moro aqui e sou brasileiro. Tenho uma percepção sobre o racismo, por exemplo, aqui no Brasil. Recentemente vi uma entrevista sobre o próximo filme do Spike Lee que fala exatamente sobre o racismo, entre outras coisas. O filme dele parece ser um estudo sobre o Brasil onde ele entrevista varias pessoas para entender o que diabos vem a ser o Brasil. Acho difícil uma pessoa ter uma percepção correta sobre uma cultura se vê não vive essa cultura e é por ela influenciada. Vc tem que vivenciar uma cultura, sofrer com ela e ela tem que de alguma forma te marcar. Somente ai vc pode ter uma percepção mais abrangente e verdadeira, por assim dizer sobre o que significa essa cultura. E isso é extremamente difícil.

– Pra mim é moleza. È só cantar e levar pro branco e meter a chulapa.

– Mas vc reconhecer esta dificuldade é um passo honesto e necessário na tua análise. Ele se assusta com a falta de negros na mídia e diz que em questões de racismo o USA esta 10 anos a frente do Brasil. Ha um parênteses aqui. Não sei se esta é mesma a opinião dele e nem sei em que contexto ele quis dizer isso mas a minha percepção é que o racismo no USA é algo inerente e latente nas sociedades conservadoras americana. Uma espécie de razão se ser e inclusive somente la a desculpa bíblica no Genesis 9, versículo 27, é usada para justificar o racismo, especificamente contra os negros. Convenhamos, uma interpretação bastante parcial pra não dizer pouco inteligente. Coitado do Canaan.

– Quem é esse praça?

– Morei nos estados unidos e pude sentir algo nesse sentido. Temos uma sensibilidade diferente. È verdade que la eles estão fazendo mais pela inclusão do negro na sociedade mas acho que la o abismo é maior. Muito maior. A percepção do racismo é diferente por aqui. Nós falamos pejorativamente do negro não pela sua cor de pele mas por sua condição social. A cor de pele é uma desculpa. Negro no Brasil, para muitas pessoas, é sinônimo de pobre e consequentemente, burro. Assim como o índio é um selvagem, na mesma concepção. A nossa discriminação é social em primeiro lugar.

– De negão não manjo nada mas de negona é tudo bunduda e gostosa.

– Essa preocupação com a linguagem é um pouco absurda. Negão, crioulo e outros são usados tanto pejorativamente como carinhosamente e não gosto muito quando há uma espécie de censura linguística em movimento. A língua é um ser vivo que traduz os sentimentos e cultura de uma sociedade e não tem muito sentido tentar molda-la. Se nem o Aurélio consegue e esta constantemente se atualizando o que dirá uma lei dizendo que não devemos chamar alguém de negro. Eu acho um absurdo sem sentido mas por outro lado não sou eu que é chamado de negro de uma forma racista. Pimenta nos olhos dos outros é refresco.

– Mas no cu arde.

– Mas acho isso pouco importante mesmo porque Afro descendentes é o cacete. Os afrikaners também são afrodescendentes e racistas. Se formos olhar para a história, somos todos afrodescendentes. Todos e nem por isso somos negros. O que se discute aqui é o tom pejorativo da palavra, mas convenhamos, pejorativo é uma questão de inflexão da língua. Não importa o que eu digo mas o que eu faço. E isso é tão verdade que a tipificação legal do racismo nem esta explicita na constituição de 88. Não existe a tipificação do racismo. Se diz que o racismo é inafiançável e imprescritível, uma babaquice, mas não se diz que merda quer dizer racismo. Existe no código civil contra o preconceito da raça e da cor entre outras discriminações. A lei não especifica sobre a sobre discriminação verbal. Isso é injúria. Vc chamar alguém de negro não é racismo. Racismo é vc tratar alguém de forma diferente por causa da cor ou outra diferença qualquer.

– Odiar rubro negros é o que?

– Essa discussão sobre o regime de cotas que o STF aprovou por unanimidade levantou varias polemicas. O DEM foi que ensejou a discussão no tribunal. Eles argumentavam que a cota de raças em universidades levanta uma questão racista. Se vc defende, segundo eles, que uma raça deve ter benefícios sobre outra vc esta criando um racismo oficial. Tem razão. Mas o problema não acaba ai. Isso é uma atitude imbecil que coloca a margem uma realidade. O que a lei sobre as cotas quis fazer é dar oportunidade a pessoas que nunca tiveram e nunca tiveram não pela raça mas por motivos financeiros e social. Ha poucos negros nas universidades porque os negros no Brasil tem menor poder aquisitivo e não tem acesso aos estudos e ao mercado de trabalho consequentemente. E segundo o ultimo censo do IBGE a população de negros é majoritária. Pouco acima de 50%. Isso quer dizer que há quase 100 milhões de pretos no nosso Brasil.

E isso cria um desequilíbrio que o governo tem obrigação de resolver. Governo é pra isso. Cuidar de todos e ver aonde há desequilíbrio e consertar. O regime de cotas é um instrumento que da oportunidade de se conseguir um melhor equilíbrio social. Mas na verdade este equilíbrio só se atinge quando a sociedade como um todo pensa e sente o problema. Quando as pessoas se sentem mais iguais e pensam assim. O que a lei faz é apenas obrigar as pessoas a pensarem e discutirem e isso é bom. A lei é um elemento que ajuda a equilibrar. Não tem o objetivo de obrigar a nada. Tem o objetivo de estimular a reflexão. Assim acho eu.

– Tu acha muito, ohhh Agripa.

– Tem uma articulista que não sabe o que diabos significa humanismo. Isso é fácil. É tudo que ele não é se é que ele seja alguém além o reflexo vazio de sua imagem. A maneira torpe como este personagem escreve é algo impressionante. Eu acho que ele usa uma cueca muito apertada e isso causa um desconforto exagerado que lhe oprime seus bagos e o faz ser imbecil. Troca de cueca, meu filho. A vida vai melhorar. Ou então compra um cérebro. Ajuda muito.

– Eu nem uso cueca que é pra evitar esses apertamentos.

– Anastacio, vc sabe aonde se consegue a esta hora um jerimum com quiabo?

– Tem um que servem la num puteiro da praça Mauá.

– Vamos pra la, meu bom camarada. Quero te contar sobre o amor e a paixão. Preciso comer algo.

– Eu também e vou comer é uma puta mesmo.

E la foram se perdendo na noite que começava.

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