As loucuras

Posted on 14/05/2012

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Regininha é cunhada do Cleofantas, prima em segundo grau do Anastacio, sogra do Agripino e é puta nas horas vagas. Nas horas que não são vagas ela é madame da sociedade local, mulher de um fazendeiro do novo agro business do sertão e lobista no congresso onde defende os interesses das sacoleiras da ponte da amizade entre o Paraguai e o Brasil e as putas, claro. O seu parentesco com os personagens de seu entorno e a os adjetivos e substantivos de sua vida, parecem aquele samba do crioulo doido do Stanislaw Ponte Preta. Ninguém entende nada e não tem o menor sentido.

A Regininha é assim. Um carnaval na zona.

* Nota do autor: Se carnaval hoje deixa Sodoma e Gomorra no chinelo, imagina carnaval na zona do baixo meretrício?

Suas manifestações intelectuais acompanham este exercito de brancaleone de contradições. É inteligente, poliglota e tem PHD em Harvard. Mas vende uma imagem de fútil e suas observações sobre a vida são imbecis e pueris. Não se sabe se para esconder seus verdadeiros pensamentos de militante do velho partidão com tendência trotskista ou se é burra mesmo.

Os seus atributos físicos são a única simetria perfeita nessa confusão toda. É alta, olhos verdes, lábios carnudos, cabelos cacheados e longos, cor de mel, cintura fina, coxas roliças e exuberantes e uma bunda que assombra pela sua elegante dimensão e proporcionalidade.

Regininha é linda e além disso gostosa paca.

* Nota do autor: coloco a nota do autor aqui encima que é pra evitar um deslocamento ao pé da pagina que além de causar confusão pode ocasionar um deslocamento de retina. Paca se refere a para caralho, uma expressão chula e não a espécie de rato da família dos cuniculidae. E não me perguntem quem são esses caras que não sou versado em famílias do interior.

Como hoje é feriado, não sei porque, a Regininha não precisava ir a Brasília e seu marido estava as voltas com uma greve de seus empregados, um fato constante. Os empregados cobravam dignidade, algo que o maridão ainda esta procurando no dicionário.

Sem porra nenhuma a fazer em casa e meio de saco cheio, ela decidiu não parar de trabalhar e com sua vasta experiência nos lobbies, estava fazendo trottoir na avenida Atlântica, ali perto da república do Peru, um lugar adequado para conseguir seus fregueses que adoravam seu corpo e não prestavam atenção a sua verve.

Anastacio, o canalha, fazia companhia a Regininha, discretamente, agachado atrás de um carro, tomando uma cerveja em latinha que guardava em um isopor velho e abandonado. Estava fora de vista dos carros que buzinavam discretamente e paravam para conversar e acertar a remuneração da Regininha para um rápido programa. Tinha uma tabela que ia variando segundo a hora da noite e o carro do possível cliente. Alguns eram seus velhos conhecidos de suas andanças por Brasília e ai nascia uma discussão já que eles também cobravam pelos seus serviços. Tudo puta. Quando a discussão aumentava de tom, Anastácio saia de seu esconderijo e com sua figura assustadora e o arroto que soltava que mais parecia um trovão, colocava os clientes em fuga desabalada, noite afora.

Nestes interlúdios entre uma foda e outra, Anastacio enchia os ouvidos da Regininha com sua filosofia barata que ouvia de seu bom amigo Agripino, o filósofo. Também esperava pela sua percentagem de qualquer programa da Regininha, canalha que era. Ele dizia que era a comissão de praxe pela segurança, coisa que a Regininha não tinha contratado. Mas ela sabia que nos seus trabalho, seja aonde for, sempre há um cafetão de plantão.

– Puta que o pariu, Anasta….Tu ta cagando ou mijando? Que cheiro de merda é esse?

– É que comi um repolho com carne seca e estava estragado …

– Espera então o vento mudar de lado, caralho….que loucura…

– Agora vc me fez lembrar de um papo do Agripa. Ele dizia que todos somos um pouco loucos ou talvez sejamos um pouco são. A verdade é que se formos nos analisar, se formos pensar nas maneiras com que lidamos com a vida iremos descobrir coisas esquisitas. E se formos fundo, se formos olhar bem fundo nas nossas manias e formas como construímos os nossos fantasmas e deuses, iremos ou chorar copiosamente no escuro da noite em um canto do quarto ou iremos rir mas igualmente sozinhos. E se formos são ou se tivermos um senso de humor meio alienista, iremos escrever sobre isso. Mas isso é pouco provável porque exigiria algo mais. Uma forte dose do que eu chamo suicídio intelectual. Admitir a nossa loucura é algo inadmissível. Quem disse isso foi o Freud e se não disse, devia ter dito. Acho que foi o Agripa…

– Como anda aquele puto?

Regininha era meio desbocada.

– Ta num puteiro. Por exemplo. Como vc lida com o ciúme? Ou melhor, como vc lida com o sucesso alheio? Que na verdade tem muito a ver com o ciúme. Vc por exemplo escreve e de repente vê alguém conhecido publicar uma bobagem qualquer e ganhar muito dinheiro. E vamos combinar que vc gosta de ganhar dinheiro, mais ou menos como a totalidade da humanidade, infectados que somos pelo vírus capitalista. Como diabos nos sentimos em relação a este sucesso? E o que acontece se este sucesso se repetir? E mais do que dinheiro vc vê o sujeito ser glorificado e vc sabe que pode fazer melhor. Vc se sente melhor. Pode até não ser mas isso não importa. Vc acha que é melhor e esta certeza é mais forte do que qualquer coisa. Acho que o Freud classificou isso como o super ego. Sei la.

– Tu nem sabe quem porra é esse tal de Fred.

Regininha fingia que era burra. Ou talvez não fingisse.

– Ou por exemplo vamos pensar em futebol. Vc foi um bom jogador, até muito bom. Excelente, mas por circunstancias alheias a sua vontade, vc nunca foi reconhecido fora do seu circulo de pelada. E vc acha isso uma injustiça. Vc pensa que poderia até jogar em um grande time e poderia até ser convocado para a seleção. E vê o sucesso de outros jogadores e pior, vê jogadores glorificados fazerem jogadas que vc faria melhor. Como vc lida com esta frustração? E vamos considerar que o futebol, por exemplo, seja muito importante na sua vida. Em termos de paixão. Ou o fato de escrever. Como se lida com isso e convenhamos, temos que lidar. Não podemos simplesmente dizer que não vou pensar nisso quando na verdade pensamos sempre nisso. Isso faz parte da nossa vida, de nosso comportamento, de nossos sonhos, pesadelos e processo criativo. Ou vc pensa que não?

– Eu não penso merda nenhuma. Vou tratar um ultimo boquete e me mandar…

– Como lidamos com os acontecimentos que ou nos puxam pra cima, ou pra baixo ou as circunstancias que mexem com a nossa paixão e todas as frustrações que orbitam em volta? E na verdade é exatamente isso que fazemos. Não pensamos muito nisso. Apenas seguimos o ritmo que nos foi imposto. Seguimos a nossa loucura. Só que as vezes, é melhor enfrentar e se dar conta desta loucura. Explica muitas das merdas que nos acontecem e explicação é sempre bom neste enorme caldo de mistério que é a nossa existência.

– Ihhh, fudeu Anasta. A cana chegou. Vou ter que dar um boquete de graça. Porraaaaaa….

– Fui …..

O cheiro de mijo e coco se misturou ao doce sabor da maresia que se levantava do mar negro desse começo de noite de Copacabana, a Sodoma do mundo moderno.

Ao longe se ouviu um forte barulho de freada e uma batida surda. Alguém tinha levado a pior.

– Que merda…

Regininha estava levando a sua dose de sacrifício.

– Assim é a vida, pensou o Anastacio, la ao longe.

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Posted in: ASSIM É A VIDA