A anarquia do tempo

Posted on 16/05/2012

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Herman Kraus, o anarquista, é um dileto amigo do Anastácio, o canalha. É alto, com mais de 2 metros de altura e quase o mesmo de largura. Tem uma cabeleira loura esvoaçante e bonitos olhos azuis. Uma vez deu um soco em um cavalo e o pangaré desmaiou na hora. Kraus é um animal e gay. E tem orgulho disso. De ser gay já que animal ele não admite que é. O problema é quando gosta de alguém. Haja parede pra se encostar. Ele come mesmo e não há problema de ser na marra. A sua técnica de paquera não é nada sutil. Anda sempre com varios sabonetes nos bolsos, daqueles bem baratinhos distribuídos em móteis e quando encontra um objeto do seu desejo, joga um sabonete disfarçadamente no chão e quando algum educado Mané, não necessariamente o seu objeto de desejo, abaixa pra pegar, já era. Nada sutil. Caiu na rede é peixe. Ainda bem que o Kraus respeita os amigos. No resto das preocupações humanas, o Kraus tem uma solução simplista sobre qualquer problema.

– Ter que keimar tuda. Pazzar na fogo.

 

Kraus, o gringo, é um anarquista da velha guarda. Si hay gobierno, soy contra, repete ele. Ninguém sabe qual a sua nacionalidade e nem a sua origem. Tem um sotaque ora germânico, ora russo e as vezes fala que nem japa. Foi combatente toda a vida contra todos os governos ou contra qualquer entidade que se estabelecia contra o caos, como provam as suas inúmeras cicatrizes que ele orgulhosamente mostra quando faz um striptease totalmente bêbado encima de uma mesa de bar. È um espetáculo dantesco que faz invariavelmente todos saírem em desabalada carreira, rua afora. Ninguém sabe o que pode acontecer a seguir. Diz ele que esteve na comuna de Paris, mas deve ter sido em espírito e conta que participou de todos os movimentos no mundo que se rebelaram por alguma razão. Não interessava o motivo. Se rebelava, já tinha razão. Torceu pelo Galtieri na Argentina só pra ver a Thatcher se fuder.  Lutou nas hordas republicanas na Espanha, nos países bascos e quando Franco massacrou seus oposicionistas, ele se aliou ao ETA e foi o responsável por vários atentados e mortes naquela estranha e bela região da Espanha. Abandonou a organização que segundo ele era muito certinha e afirma aos brados que Bakunin era um maricas conservador. Seu lema é, viva o caos só pra se diferenciar dos assassinos falangistas onde o lema era viva la muerte.

– Espanha é a karralhaaa. Aquilo ser pais baketrish, tela de majo, no? Respondeu o big Kraus em uma salada de acentos.

– Imagino que vc queira dizer país basco e aqui tem mulher e nós achamos ótimo. Macho é coisa de viado.

– arghhhhh..vc ser canalhiski Agripina. Querrr saboneta?

– Agripina é o caralho e enfia essa saboneta no cu…Pede uma cerva, Anastácio, que este gringo é porra louca.

– A Regininha te mandou um alô. Diz que ta com saudade.

– Como anda aquela puta, com todo respeito?

– Tava com a boca cheia, a ultima vez que a vi..anda sem tempo.

 

– Há uma discussão sobre isso que envolve a concepção do passado. Estabelecemos que o futuro não existe. Há economistas que insistem que ele existe, mas isso são apenas bobagens e invenções de jornalistas e alguns políticos cínicos, um pleonasmo. O tempo. É uma discussão filosófica constante desde Santo Agostinho e faz parte da discussão e do pensar de todos os filósofos. E neste conceito, há o passado. Ele existe? Existe, mas e daí? O que de importante aprendemos com o passado? Ele é inerente a nossa condição de ser humano. Mesmo que não acreditemos no passado ele nos constrói. Somo fruto desse passado o que não quer dizer que tenhamos que ser escravos dele. Podemos ser críticos dele e podemos até discordar. O livre pensar. Podemos até ser intransigentes e dogmáticos e entender que os fatos relatados são apenas uma interpretação. E daí? Se eu sou o passado o que eu penso não necessariamente é. Eu construo o meu presente com os instrumentos da minha alma. E posso discordar dos fatos. E até devo. Pensar é uma constante no ser humano e pensar livremente. A construção do ser humano não pode estar baseado no passado. Ele já é inerente a nossa condição. Não deveria ser determinante no nosso futuro. A única utilidade de um fato do passado no meu presente é que ele me faz pensar. Só isso. Mas não devo aceitar esse fato como um dogma. É apenas uma centelha do meu pensamento. O meu pensamento tem que estar baseado em coisas mais fortes e determinantes. Como a minha moral e minha ética que estes sim eu construo.  E estes valores, por assim dizer, devem ser humanistas, ou seja, devem levar em consideração o bem estar dos meus semelhantes. Eu não posso usar o passado para justificar merda nenhuma. A única justificação possível nos meu atos e nos meus pensamentos tem que ser meus valores. E só. È uma questão de responsabilidade intelectual. Saber não é pensar e nem muito menos é ser. Ser é viver. É levar em consideração os teus mais arraigados valores morais. A tua alma. O resto é cinismo explicito. E idealização do ser humano.

– Sel humana capitalista é um melda….shupentropf….Anastaziaaa cair minha saboneta na chão…vc pekar?

– qual é gaykraus? Ta me estranhando? Sou espada…vai comprar salame na feira, sua boiola gigante…

 

– A história da humanidade é bonita e cheio de horrores e extraordinárias realizações. O que aconteceu no passado são fatos sujeitos a mil interpretações, inteligentes ou charmosas algumas. Mas são estórias. Contos. Talvez fatos.   Que conta a nossa aventura como espécie em toda a sua grandiosidade e mesquinharia. Diz o que somos. O que fomos, melhor.

O que eu defendo é que nada disso é determinante ao que serei. Ou ao que sou. E isso porque eu tenho uma arma poderosa que é a minha alma, o meu pensamento, o meu intelecto, as minhas crenças que podem ser relevantes ou não, mas para mim são essenciais e fundamentais. Duvidar do que sei é um exercício constante de intelectualidade honesta e diria fundamental.

È um exercício de excelência intelectual. O que não quer dizer que aceito qualquer merda que dizem ou escrevam.

Ninguém sabe merda nenhuma. Nas ciências, apenas descobrimos o que já existe e as vezes descobrimos que o que sabemos não é bem assim e na filosofia apenas imaginamos o que somos. Na historia apenas interpretamos fatos que nos foram contados e que acreditamos serem verdadeiros, ou não. E nada disso é relevante. Não importa. Mesmo os fatos recentes que tem ampla cobertura jornalística são sujeitas a interpretação. Depende de quem os vê e de quem os filma.

Eu tenho que entender uma coisa. Independente do que veja, do que eu interprete, ou do que entenda, a realidade é única e muitas vezes escapa ao meu conhecimento. Então o que eu tenho que fazer é dar um desconto e admitir que eu posso estar errado e pensar que o que eu penso pode ser melhorado.

Quando vc analisa o presente, quando vc é um observador de tua realidade, vc inevitavelmente começa a imaginar e quer um futuro. Vc idealiza um futuro. Um futuro possível e um futuro ideal, dentro de teus conceitos. Vc não esta fazendo nenhuma adivinhação. Somente os burros endêmicos fazem isso. Imaginam como o futuro será. O futuro não será merda nenhuma porque ele não existe e portanto eu não posso prever e nem adivinhar nada.

– arghhh…estar canzada da prezente..vou jokar saboneta na eskina….

 

– O que eu posso fazer é idealizar um futuro possível.

O que Marx, por exemplo, fez foi isso. Marx foi um arguto observador da realidade do tempo dele. Um grande pensador. E partindo dessa observação ele imaginou um futuro. Baseado nos seus valores humanísticos. Ou alguém tem duvida disso?

Muitos dos críticos de Marx nunca leram e os que leram a maioria não entendeu. Quando vc observa uma realidade e faz uma projeção do futuro vc esta dizendo que o futuro pode ser assim. Deve ser assim. Não que será assim. O que pode ser e o que deveria ser esta baseado na tua concepção dos teus valores. Vc acha aquilo justo e certo.

– Zerta é explodir tuda e jogar saboneta na munda.

– Na bunda?????

– Naum, na planeta, Anastaziaaaa….

 

– O que a maioria dos economistas e pitonisas de plantão fazem é dizer que assim será porque a realidade é esta. Não dizem que pode ser porque é justo. Dizem que vai ser assim porque isso é real. Porque os fatos do presente levam a esse futuro. Como? Então o futuro existe? Não, não, dizem eles. Tudo indica que assim será. Quem diz? A observação da realidade? Mas a observação da realidade além de ser subjetiva, é uma merda. Não, não, a minha observação é a verdadeira. Então ta. Pior cego é aquele que não quer ver e também em terra de cego quem tem dois olhos…ihhhh…errei.

O fato é o seguinte. A vida se torna complicada quando queremos respostas. Procuramos respostas e sempre as encontramos mas quando alguém supostamente mais inteligente chega e diz que não é bem assim que o que as nossas respostas estão erradas ou são uma bosta, o que vem a dar no mesmo, se estabelece a grande confusão. Porra, cacete. E nós achando que a vida era simples.

– A vida ser simples, Agripina. Vc é que acha que é esculhabaçon…Anastaziaaa, vc gostar de gueixha???

– Sai pra la boiola…Porra Kraus. Tu comeu chucrute estragado, Vamos pras putas que elas tem uma vida simples. É só sexo.

– Arghhhh…isto ser bhom…vamos os phutos…

– Puta, PUUUUUTA, Kraus. Puto é pra tu…

 

E assim, la foram eles ao seu futuro próximo certamente com uma lembrança próxima dos seus passados lúbricos.

Numa esquina, uma velha cigana oferecia adivinhar o futuro.

Uma estrela cadente iluminou por segundos o céu claro daquela noite de outono do Rio de tantos janeiros.

 

– O mundo vai acabar, clamava um maluco vestido de dinossauro.

 

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Posted in: ASSIM É A VIDA