As boas maneiras da Duquesa

Posted on 17/05/2012

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A Duquesa Esther Katarina Marinulda Esteloftoia Rubentrof Von Bungorten, mais conhecida como Dona Creusa é uma tia do Cleofantas, o assassino profissional das horas vagas, hoje um amador.

Em épocas priscas, foi casada com o Duque Ivanovich Zsibilonski Profokow Drakull dos Balcãs da casa dos Romanow. Viviam uma vida de fausto e deslumbramento e eram figuras fáceis nas festas da alta sociedade alienista. Eram os chamados arroz de festa. Acompanhavam tudo. Suas festas eram famosas e exclusivas com cascatas de camarão e lagostas, cachoeiras de champagne e vinhos esplendidos, montanhas de caviar beluga do mar Cáspio que certamente deixariam os ativistas do Greenpeace horrorizados. As festas eram frequentadas pela fina nata da nobreza Europeia, pelos magnatas e donos de minas, por banqueiros famosos, artistas de Hollywood e putas finas e esplendidas. Anastácio também frequentava e nem precisava entrar de penetra e se esgueirar por frestas invisíveis. A sua condição de canalha era o seu laissez passer. Afinal estava entre colegas de profissão. Dizem que nessas festas eram servidas como sobremesa, esplendidas virgens nuas que desfilavam para o deleite dos nobres convivas quando as luzes se apagavam que eles eram, afinal, meio tímidos e recatados. Mas isso era lenda. Acho eu. O Kraus tentou colocar varias bombas nos fantásticos bolos de chocolate e outras iguarias ali servidas mas era desencorajado pelo Anastacio que não queria perder a boca nem a oportunidade de comer alguma nobreza desavisada. Dizem que prometeu em troca uma noite com algum príncipe adorador de sabonetes ou simplesmente dava o endereço errado e as explosões aconteciam em outras paragens.

Mas tudo na vida dura pouco ou nada dura pra sempre, o que vem a dar rigorosamente na mesma.

Um dia a Duquesa se fudeu e não no sentido sexual. Isso ela já estava acostumada. O seu marido se fudeu, sem nada ter a ver com atos masturbatórios. Perdeu tudo e como ele era o sustento da família, além de ter roubado toda a fortuna da Duquesa, algo comum nos de sua laia, a débâcle veio em cascata. O Conde, este soturno personagem misterioso, parece que se envolveu em escândalos sexuais com suas primas e tias, em orgias famosas nas estepes geladas da Sibéria além de ter vendido armas e drogas para o Rei Leopoldo, o maior assassino de todos os tempos, tudo crimes menores, mas acabou caindo em desgraça quando não declarou seu imposto de renda se esquecendo do lema americano: death and taxes. Se escafedeu no silencio da noite. Por isso esta até hoje sumido e só é visto disfarçado de garçon nas festas da nobreza em Mônaco e fantasiado de travesti nas baladas do MC Trovão na baixada fluminense onde se esbalda nos bailes funk, se enrolando com as popozudas e as cachorras com decotes e bundas generosas.

 

No rastro dessa desgraça, a Duquesa Von Burgoten perdeu seu chão da noite para o dia. E além do chão, perdeu seu teto, sua grana, seu motorista, seu marido e todas as suas joias e só tinha sardinha em lata pra comer o que lhe causava espantosos e sonoros arrotos nauseabundos que espantavam as suas poucas amigas que ainda mantinha. Não tinha como controlar o seu mal estar, acostumada que foi durante toda a vida a comer do bom e do melhor. Nem sabia que existia sardinha no reino aquático e sempre pensou que as estranhas latinhas que de vez em quando via nas mãos de seus serviçais era comida de gato ou esterco enlatado. Pra que existia esterco enlatado, não fazia parte de suas inquietações intelectuais. Sua vida de então corria entre animadas partidas de bridge e conversas pueris com suas empoladas amigas da alta sociedade e os tradicionais chás das cinco com torradas que se transformava em chá com porradas quando o Conde seu marido tinha dificuldade em receber alguma comissão de seus inúmeros e sombrios negócios e descarregava suas frustrações na Duquesa e suas amigas. Elas até gostavam dessas surras eventuais, entediadas que estavam no seu dia a dia e mostravam as marcas das surras, geralmente nas partes intimas, as suas invejosas amigas que não tinham a sorte de participar de tais atos brutos. Dizem as más e invejosas línguas que nessas ocasiões, que não eram assim tão raras, o Conde, um antigo cosaco alcoólatra, ficava muito puto e arrancava as vestimentas de sua esposa e de suas amigas e as deixava nuas e comia todas as amigas e a duquesa no chão da cozinha para onde ele as arrastava nesse ímpetos de fúria. Cometia os atos lúbricos e selvagens na frente dos serviçais que aproveitavam e comiam a todas também, sem deixar escapar a bunda alva do cosaco impetuoso, que dava bobeira.

– Ahhhh, que tempos gloriosos, diziam todos.

Menos o Conde que não apreciava muito ter o seu orifício ser assim tão selvagenmente invadido. Mas é o tal negócio. Há uma expressão que o Conde só conheceu dolorosamente quando aportou por estas terras e diz que Cu de bêbado não tem dono.

 

O que sobrou dessa estória toda é que a Duquesa ficou no maior miserê, perdeu todas as suas amigas  e não tinha o que fazer porque não sabia fazer merda nenhuma.

Foi assim que ela teve uma brilhante ideia. A Duquesa era uma Lady e como tal tinha muito a ensinar. O que, não sei, mas parece que tinha.

 

O que nela era usual e corriqueiro, já que fazia parte do seu dia a dia, era para os simples mortais um misterioso ritual ao alcance de muito poucos privilegiados. Este cálice sagrado que a Duquesa dominava como poucas, se chamava boas maneiras.

A Duquesa passou então a ensinar a plebe ignara as boas maneiras que fazem o ritual diário dos de berço privilegiados.

Começou a ensinar como se sentar a mesa, dispensando a cueca velha, camisetas furadas e ensinando que é de praxe se vestir com calça e camisa para os homens e vestidos para as mulheres, lavar as mãos antes das refeições ou simplesmente lavar as mãos de vez em quando, puxar a cadeira para as mulheres se sentarem e não puxar a cadeira das mulheres para elas se estabacarem no chão, usar corretamente os talheres, dispensando a mão, usando a faca para cortar em vez dos dentes e mostrando que o garfo não pode ser usado para apontar nem espetar ninguém em uma conversa, lavar os pratos e talheres todos os dias depois do uso, usar um guardanapo e não a manga da camisa ou a mão para limpar os resto de comida que ficam nos lábios, se servir frugalmente e não montar estruturas ciclopicas e piramidais nos pratos, não levantar o dedo mindinho quando se bebe uma flûte de champagne e que o arroto é totalmente dispensável, além de uma falta de educação e classe. Peidar na mesa e principalmente rir depois, nem pensar.

Ninguém tinha ideia que merda era flûte de champagne e quando a Duquesa apresentou a plebe o gosto do precioso liquido de algumas garrafas que ainda tinha guardado servido em uma flûte que ainda mantinha, todos mais ou menos gostaram dessa água com gás açucarada, misturada com cachaça, servida num copinho de merda.

Aos poucos a Duquesa ensinou como falar sem gritar, como cumprimentar sem dar tapas violentos nas costas, como conversar outros temas que não futebol e mulher e como educadamente discutir dialeticamente qualquer questão, sem sair logo na porrada com chutes e pontapés. Ensinou que não é de bom tom passar a mão na bunda do mulherio sem mais nem menos, algo que foi difícil de ser assimilado. E no final já se podiam ouvir nas festas musica de Mozart e Beethoven que pouco a pouco faziam frente aos pesados funks  de bundalele.

 

O seu manual de boas maneiras se fez famoso e ela era contratada para organizar festas, ensinar protocolos adequados a cada festividade e ocasião e mostrar que um pouco de civilidade no meio da barbárie ajuda a elevar o índice de humanidade entre as pessoas, especialmente o dela. Dizem que até ensinou a fuder corretamente, mostrando técnicas aos musculosos crioulos das favelas, ou afro descendentes das comunidades periféricas, neste tempos de politicamente corretos, técnicas que ela aprendeu com o fogoso e devasso Conde siberiano.

 

Mas por mais que ela desse aulas e ensinasse boas maneiras e fudesse bastante, não era o suficiente para comprar seu caviar beluga e suas flûtes de champagne, coisas que ela ainda adorava e tinha saudades. Foi por isso que passou a vender pasteis de vento na central do Brasil e adotou o nome de dona Creusa. Ninguém ia acreditar que ela era Duquesa, vestida com uma saia surrada, lenço na cabeça que escondia seus cabelos arreganhados, pernas cabeludas sem depilar e gritando a plenos pulmões como uma vulgar feirante:

– Olha os pasteeeeeel quentiiiiinha…

 

Os seus pastéis eram uma merda mas vendiam que nem água no deserto. Ela dava pro chefe da estação, que tinha tara por mulher cabeluda e ganhava em troca o melhor ponto. O único da sala de embarque e como os trens atrasavam mais que salário em época de crise, os seus pastéis eram um bom passatempo.

Não tinham recheio nenhum e quem encontrasse uma azeitona, ganhava um segundo pastel que ela também cobrava, que de graça é o caralho. Se encontrasse duas azeitonas era milagre e não valia.

Nessa horas de defender o seu dinheiro, a Duquesa era mais grossa que sururu na feira. Afinal de contas, enganar os miseráveis era um velho e arraigado habito dos de sua laia e ela sabia fazer como ninguém.

 

A Duquesa, quem diria, acabou na Central do Brasil.

 

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