Aprender e não ensinar

Posted on 20/05/2012

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Agripino é um solitário. Não que isso seja um obstáculo a sua felicidade. Gosta de beber nos botecos da vida e come suas putas, quase todo os dias. Tem amigos que ouvem suas diatribes diárias e nunca dorme sozinho.  A sua solidão é intelectual. Os seus velhos amigos da época acadêmica ou estão mortos ou casados, uma outra forma de morte, assim diz ele. Nenhum de seus amigos de outrora sequer admitem frequentar os lugares onde ele se sente bem e protegido. E ele jamais frequentaria os lugares chics e comportados de seus burgueses e diletos ex amigos. Agripino adora um bas fond.

O outono se instalava no Rio com suas chuvas e dias de frio e desconforto para o espírito cálido dos cariocas. Já não se viam as gostosas com roupas exíguas e isso é uma agressão aos olhos devassos dos habitantes desta terra abençoada por Deus. O tempo era de um frio quase ártico e devo explicar que o ártico é qualquer tempo que te obriga a usar sapato em vez de havaianas ou que obriga a guardar as bermudas e te desencoraje a ir a praia, uma maldição divina. Nada disso importa. O inverno é o tempo que obriga as mulheres a se vestirem com pesados casacos, blusas pesadas, suéteres longos, cachecóis esfuziantes e longas botas que trepam por suas coxas e escondem seus corpos. Agripino tinha que adivinhar essas esculturas escondidas que tão bem conhecia e, convenhamos, isso é coisa de paulista que tem mais imaginação que nós e esconde melhor suas belas mulheres. Dizem que isso é elegância. Pra nós é um saco. Carioca esta acostumados a ver mulher semi nua. Estamos cercados por elas.

Não é justo. O outono e o inverno são o inferno de Dante para o Rio de Janeiro.

Assim, nesse espírito sombrio e agourento, estavam la bebendo e conversando que é o de bom se faz neste tristes tempos.

– Gostosa…. de vez em quando o Anastácio jogava um elogio ao léu, que era pra não perder o costume.

Alguma mulher excessivamente vestida por la passava.

Era mais adivinhação que constatação.

Nem o Kraus andava nesses dias com sua provisão de sabonetes. O sexo estava momentaneamente banido.

– Fala alguma coisa, Agripa….

– Ya whollll. Falar alkuma koiza, Agripina…

–  A excelência intelectual e o seu divorcio com a educação e os bons modos. O politicamente correto nada tem a ver com a exigência intelectual pela excelência. E nem o ensino, essa difícil arte.

– Arghhhhh…papa complicada….tem que jokar bomba….

– Cala a boca germânico de merda boiola….teu negócio é rola. Segue ai Agripa…

– Se vc notar, quase sempre o gênio, aquele aonde a excelência intelectual é uma máxima, é um sujeito intratável no social. As suas relações humanos são uma merda. E na vida profissional, onde cada vez mais se exige a excelência, há um claro divorcio entre o convivo entre seres humanos em um ambiente agradável e a excelência intelectual. Isso porque o tempo é curto. Vc não tem tempo de ser polido e cortes com alguém que comete erros ou com alguém que tem um arrazoado técnico, uma base de sustentação medíocre e nada sofisticada. E isso serve para qualquer ramo.

– Rrrama da arvorrrre?

– Vai pegar um saboneta Kraus e para de encher o saco…

– Ahhh…Yaaa. Vc ker saboneta Anastaziaaaa…???

-Imagina um papo entre um intelectual e uma mulher, digamos, confusa…

– Mas porke de um lado estar a omen intelejente  da outra estar a muler confuza? Porke não a contraria?

– Boa pergunta Kraus. Mas como sou eu contando a estória os personagens são meus e eu faço o que bem eu entendo. Se quiser posso botar uma bicha confusa e uma puta intelectual. Quer?

– Eza sim ser boa. Querrro sim….mas isso ser cumplikada…

– Vai ficar querendo…

O Agripino tinha que inventar papos imaginários com personagens imaginários. Se não, nada saia do lugar e o seu raciocino não fluía, não que isso fosse fundamental. Grandes merdas.

– Agora imagina o papo conforme eu pensei. A mulher faz uma observação nada inteligente, isso para os ouvidos do intelectual sem paciência:

– Vc é uma débil mental.

– Puxa, vc é um grosso

– Sim, mas eu conheço as normas de etiqueta e sou um mal educado circunstancial. No entanto vc é uma débil mental endêmica.  Eu estou sempre aprendendo. O que não quer dizer que deva aceitar imbecilidades obvias. Tenho que ter excelência no meu aprendizado e saber filtrar o que aprendo. A isso se chama excelência intelectual. Sofisticação intelectual. Que nada tem a ver com soberba ou prepotência, mesmo porque soberba e prepotência são coisas de imbecis e anencefálicos.

– È difícil de entender. Vc parece muito prepotente

– Isso é porque vc não tem sutileza e acha um monte de merda. Entenda uma coisa. Eu não posso me contentar com as coisas simples. Se eu estudo, se entendo, seu eu sei é porque eu quero saber mais. È porque eu quero aprender mais e eu só vou aprender com alguém que entenda isso. Que entenda que a excelência intelectual é uma exigência moderna. Vc perde tempo sendo gentil. Vc perde tempo sendo educado e querendo ensinar. O teu trabalho não é ensinar. É aprender.

– Mas se vc não ensina, como aprende.

– Entenda o seguinte. Se vc ensina, vc se coloca em uma posição de soberba. Vc não nota, mas é assim. Quer dizer que vc se julga melhor. Não que vc sabe mais, mas ao ensinar vc necessariamente tem que se colocar na posição de alguém que sabe mais. E nessa posição vc não consegue aprender nada já que vc acha que sabe mais. Não tudo, mas a única postura possível no aprendizado é se colocar na posição que vc não sabe ou que sabe apenas uma parte. Que falta algo. E com isso, vc absorve. Vc aprende. É um posicionamento intelectual. E a única maneira de fazer isso é se colocar na posição de aprendizado constante.

Só que aqui, aparentemente há um problema. Se vc aprende, quem ensina? A resposta é simples. Ninguém. Somo todos aprendizes. Críticos. Em constante duvida. Polêmicos. Se conversa e se exige. Entendeu?

É muito fácil vc entrar na armadilha de querer ensinar e ai se fode. Porque as pessoas odeiam serem ensinadas.  O que vc odeia, não é a burrice, não é a mediocridade. O que te faz ficar de mau humor é o ensinamento. Quando alguém tenta te ensinar esta implícita a mensagem que o outro se acha melhor e isso é inaceitável para qualquer psique. Pensa bem. Quais são as ocasiões que deixam vc ficar de mau humor, além do vento norte que não tem nada a ver com nenhuma intelectualidade? É tua mulher reclamando de alguma coisa. Esta tentando te ensinar alguma coisa. Quando vc lê um débil mental escrever sobre algo de uma forma imbecil. O sujeito esta querendo te ensinar algo. Vc não fica chateado ou puto, a forma mais chula de ficar chateado, porque o sujeito é burro. Não. Vc fica puto porque o sujeito esta tentando te ensinar. Um débil mental.

O sujeito sempre diz:

– Me ensina

E quando vc o faz, ele gosta no principio mas quando vc exige mais, quando vc vai mais fundo, quando desmascara a burrice do outro, o outro, é claro fica puto e considera vc um prepotente. E ele estará certo e no final todos ficam putos. O que nada tem a ver com a pratica intelectual.

– Quer dizer que os professores são uns prepotentes?

– São. Todos. O segredo é vc discutir, conversar, polemizar e não deitar cátedra mesmo porque quando vc começa a aprender e, atenção, aprender não é algo simples e corriqueiro, mas quando vc domina a técnica de aprender, vc passa a ser um intelectual e passa a entender todo o processo. Entendeu?

– Entendi

– Não, caralho. Discute, porra. Discorda que eu estou te ensinando e na verdade eu não estou te ensinando merda nenhuma. Só estou pensando e expondo o que penso. Babaca.

– Sim, mestre

– Olha ai um sabonete que o Kraus deixou…. pega ai.

Amanhecia no baixo meretrício de Copacabana.

No hortifruti ao lado, começava a cantoria de todas as manhãs antes de abrir.

– Boooom dia…..boooom dia….. é um novo diaaaaa e estamos feliz…..booom dia….booooom dia….esperamos vc para nos fazer feliz….

A rima era uma merda mas as putas que passavam de volta pra suas casas nessa manhã cedo, riam e se esqueciam um pouco dos falsos amores prometidos.

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Posted in: ASSIM É A VIDA