O filhos

Posted on 23/05/2012

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Dizem que o Cleofantas já teve seus filhos. E todos eles estão bem na vida, felizes e contentes.

Cleofantas tem la suas opiniões sobre filhos, mas ele não externa o que sabe.

Estavam, como sempre, bebendo no boteco de sempre. Mas também comiam em uma pantagruelesca demonstração de despautérios. Era dia da famosa feijoada esperta do Mané, uma delícia de goroba, com o paio, a língua, a costela, a carne seca, o peito, a linguiça, o rabo e todas as partes sabidos do porco e mais algumas inventadas que se misturavam e pareciam nadar em completo equilíbrio e gosto no caldo preto e espesso dos feijões, acrescentando sabor e excelência a tradicional feijoada dos sábados. A soberba, verde e brilhante couve, cortadas em tiras finas, refogada no ponto, molhada, encimada de pequenos pedaços de bacon bem fritos e crocantes e pedacinhos de alho refogados, acompanhada de generosas porções de torresmo crocante, deformados, curvos e salgado, soberbos, um choque de colesterol, as tiras de laranja que ajudam a suavizar o sabor da mistura dando um toque especial e o arroz branco, soltinho com pedaços de alho e cebola refogados completavam o manjar dos desuses. E claro o caldo de feijão, espesso, bem temperado coado, servido em um copo meio longo de cachaça da boa com a farofa no fundo e o bacon em pedaços pequenos na parte de cima e pitadas da pimenta malagueta que matou o guarda, abria o apetite junto com a generosa pinga de limão dos diabos, uma bem elaborada mistura de sumo de limão coado, cachaça de salinas, la de Minas Gerias, da porra e um toque de açúcar, só um toque, pra quebrar o grau de acidez, que acompanhava a cerveja estupidamente gelada, servida em copo americano, para os tradicionais e conservadores, ou em um copo pequeno e fino, para os mais exigentes, no intuito de manter a temperatura gelada, com boca larga, pra arredondar a espuma de dois dedos e meio, espessa e consistente, tudo descendo goela abaixo causando um bem estar de enorme paixão. E tudo regada com generosas porções de uma pimenta das brabas, daquelas que coçam o cocuruto, causam suor intenso e arde o cu, maturada com alho, cachaça, cebola, gengibre, azeite, limão, uma generosa dose de azeite de oliva sem ser extra virgem, vinagre de vinho branco seco tudo misturado e um monte de merda que ninguém sabe quem colocou e quando, se juntam a pedaços soberbos das mais maturadas espigas de pimenta malagueta da roça, daquelas vermelhas como o diabo, que ameaçavam dissolver a garrafa que guarda essa preciosa mistura há não sei quantos anos. A ingestão de tal mistura, queima as entranhas e expulsa qualquer diabo ou espírito do mal que porventura tinha se apossado desavisadamente dos espíritos dos comensais e que saia em desabalada carreira esconjurando todas as ameaças possíveis e impossíveis aos filhos da puta que usavam engolir essa estranhas misturas. E todos riam as mil gargalhadas contando a ultima do português que até o Tomás aceitava a sua proverbial burrice.

 

E de vez em quando, algum menos cascudo, mais sensível, com um terremoto nas suas entranhas começando a se manifestar,  desaparecia em direção ao único banheiro do boteco. E quando se diz banheiro, se esta sendo generoso. Na verdade é uma porta onde não há nenhuma alusão ao sexo, apenas uma inscrição poética, mas significativa, Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate afixada na porta imunda e la dentro, o tal inferno, onde a merda ainda esta viva que nem uma ciclopica besta em um infecto buraco negro que ameaça nos engolir se entrarmos desprevenidos. Definitivamente, uma ida aos banhos dos botecos, não é uma aventura que se ouse enfrentar sem consequências. Melhor soltar algum gás engarrafado e incomodo, também chamado de peido e rezar que não venha acompanhado de algo mais solido ou liquido, que ainda é pior, porque ai é uma merda, em todos os sentidos. Irão reclamar, mas foda-se. Feijoada tem la suas manias que não fazem parte dos salões dos reis e rainhas. É coisa de plebe. Peida-se mesmo. Uma delícia. A feijoada, claro.

E no meio desse grande ágape, se fala dos filhos.

 

– Os filhos chegam e nem sempre são programados. Vamos explicar melhor. Quando vc casa ou atualmente, junta, vc pretende ter filhos em algum momento. Pelo menos na maioria das vezes. Sim, porque há casais que pretendem viver sem filhos o resto de seus dias. Já acham suficientemente complicado se juntarem e abrirem mão de suas independências. Ter filhos, para estes casais, seria um problema demasiado grande para administrar. E eles existem, sim. Eu mesmo conheço um casal assim. E são extremamente felizes.

– Ou seja, gostam só de fuder.

– Todos gostam, babaca.

– Nem todos…

– Mas vamos voltar aos casais que pretendem ter filhos. A Igreja católica diz que não tem que planejar nada. O negócio é fuder logo e procriar. E nada de só fuder. Segundo a Igreja, tem que fuder e procriar e se não procriar, não pode prevenir que a natureza siga seu curso normal. Ou seja, nada de evitar que o imbecil do espermatozoide, na verdade uma porrada deles, entrem no duto apropriado e lutem para entrar no ovulo. Ou seja, neneca de camisinha, mesmo que venha com sabor do espírito santo.

E atenção. Neste corrida de Ben Hur dos espermatozoides, só um pode entrar. É mais ou menos como uma luta de gladiadores. O negócio é lutar até a morte e só um sobrevive. Pronto. Este sobrevivente se transformará e um ser humano, no aconchego do óvulo. Porque, ninguém sabe. E depois dizem que a mulher é preterida e discriminada. Uma porrada de espermatozoide machos morrem e só um entra em UM óvulo feminino. Sacanagem.

E nem sempre entram. Porque há casos em que nada acontece, seja por falta de pontaria dos espermatozoides, ou por suicídio coletivo, também chamado de punheta. O certo é que ninguém sabe o que merda acontece com estes merdinhas que nada conseguem. Aonde vão parar? É bom nem começar a pensar se não entraremos em discussões metafísicas complicadas e tediosas. O óvulo ta la esperando, numa boa.

Mas deixa pra la.

 

Em acertando o alvo, nasce a pestinha ou as pestinhas, se gêmeos forem. A primeira coisa que procuramos quando eles chegam é ver aonde diabos esta o manual de instrução. Não adianta. Por mais que procuremos, não achamos e temos que começar a apertar uma porrada de botões porque a pestinha não para de gritar, chorar, fazer cocô e fazer xixi, não necessariamente nessa ordem. As vezes, eles se cansam dessa atividade toda que nos inferniza e dormem. E somente ai podemos ter a paciência de observa-los melhor e os acharmos umas gracinhas. E logo depois desmaiar de sono e exaustão.

Eventualmente o tempo passa e começamos a ficar mais experientes e começamos a entender exatamente que botão temos que apertar para que tudo funcione bem. O problema é que na medida em que o tempo passa, os tais botões que nós já nos acostumamos a apertar e conseguir resultados, mudam. Agora são outros botões e voltamos a estaca zero. Não sabemos que merda fazer. E o pior. Os pirralhos começam a ter consciência e começam a responder e ter vontades. Começam a pensar. Que merda. Isso não foi o combinado.

Somos a única espécie animal que enchemos os pirralhos com uma quantidade de regras, normas e informações assombrosas. E isso porque somos seres muito mais complexos que os gorilas, por exemplo. Ta bom, nem todos. Para alguns, os gorilas são seres assombrosamente superiores. No intelecto.

 

Aos pequenos projetos de gente, temos que ensinar como pegar um garfo, como cortar um pedaço de pizza, como beber uma cerveja gelada ou um copo de leite que mais tarde eles vão achar uma merda, como fazer cocô e xixi no vaso, como se limpar sem gritar pelo nosso auxilio, como tomar banho sozinhos e como se vestir se bem que neste ultimo quesito eles detestam que os vistamos. Se sentem sempre ridículos e com razão.

E principalmente, ensinamos como falar, essa complicada engenharia que ensina como usar o mesmo duto por onde respiramos e comemos para emitir diferentes sons. É uma coisa de louco, convenhamos. E as vezes, ensinamos os pirralhos a falar vários dialetos diferentes e nos admiramos que com tanta informação, o que estas pestes falam, tem sentido. Pouco tempo depois, começamos a ensina-los a escrever o que falam e a ler o que escrevem, uma outra habilidade assombrosa. E continuam a fazer sentido. Cada vez menos para nós, os adultos babacas.

Mas agora vem o complicado e é ai que a porca torce o rabo e nos fudemos definitivamente.

Queremos ensina-los a pensar e a sentir. E ai meu amigo, é uma perda de tempo.

Por uma razão muito simples.

Eles já sabem pensar e já sentem e há muito já nos acham uns babacas de carteirinha, o que na verdade somos, mas até então era um segredo muito bem guardado.

E começam a saber construir seus próprios mundos e o que continuamos a falar e ensinar parece grego e babaca e não tem a menor importância. Nós achamos que é o supra sumo do babalorixá, mas é uma bosta de mensagem. Não se iludam.

 

E nós, que durante toda a vida deles fomos os responsáveis por ensinar tudo, nos frustramos com isto. De repente, não conseguimos mais ensinar. Eles se negam a aceitar o que ensinamos. E com toda a razão. Fomos desmascarados. Descobriram que somos uns imbecis pomposos, vestidos de pais.

Que merda.

Então o que fazer?

Ora simples.

Paramos de ensinar. E passamos a ser apenas nós mesmo. Uns imbecis sem nenhuma relevância.

Deixa eles viverem. Já fizemos o que tínhamos que fazer.

E vamos levar uma coisa importante em consideração. Tudo que ensinamos eles absorveram mas eles nunca foram pessoas imbecis desprovidas do ato de pensar, como nós pensávamos. Não nos enganemos. Eles observam e já pensam, há muito tempo. Já nos sacaram há tempos.

E eles sabem distinguir o que é falso. E o que é falso?

Quando vc ensina coisas da vida sem nunca ter acreditado nelas e ensina só porque dizem que tem que ensinar.

Neste momento, vc apenas tem que mostrar quem vc é. Eles já sabem, há muito tempo, então cabe a vc mostrar e colocar ao seu alcance todas as ferramentas que ele pode usar para pensar.

E diga que o único que vc espera dele é que seja feliz.

Ensine seu filho apenas a pensar. Livremente.

Mas deixe que ele decida se as quer usar. Mostre essas ferramentas.

Mostre as opções de ensino, mostre as opções de trabalho, mostre as opções do mundo, as diversidades culturais, as diversidades de pensamento, de religião ou a ausência dela, o caminho de Deus ou a ausência dele. Mostre a importância da conversa sobre tudo e sobre todos, sem censura e sem medo. Mostre o poder da comunicação. Da solidariedade. Mostre o caminho do pensar, do questionamento, da excelência intelectual, da dúvida constante e da certeza provisória. Mostre que a única cois que gostaria de ensinar é a coragem. A coragem de ser ele mesmo. Mostre que o objetivo da vida é um só. Ser feliz e amar. A todos.

Talvez com isso vc contribua na formação de um ser humano. Um homem digno e extraordinário ele já é.

Afinal é seu filho.

Diga que faça o que faça, sempre, sempre mesmo vc os amará e eles serão felizes. E diga que só isso é importante. Não o sucesso. A felicidade. Isso é importante.

Nunca devemos ensinar o que não praticamos. Isto eles sabem, se chama cinismo.

Portanto meus amigos, sejam vcs sempre. Nunca falem sem ser. Eles percebem. E no resto, façam como ensinou Santo Agostinho: ama e faz o que queres.

E nunca, mas nunca mesmo, os abandone. Os dinossauros foram extintos porque os dinossauros pirralhos eram abandonados a sua sorte logo ao nascer. Nunca evoluíram. Só sabiam barbarizar, como alguns pentelhos que conhecemos.

E por isso foram pro beleléu.

A merda do meteorito também contribuiu.

Um trovão se fez ouvir ao longe, prometendo uma tempestade. O Anastácio aproveitou, fez coro e soltou um peido fedorento. A tempestade já tinha chegado.

Eta feijoada braba.

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