A festa

Posted on 27/05/2012

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Há festas e festas. Originalmente as festas são reuniões de amigos, desculpas para fofocar, se encontrar, dançar e eventualmente, se apaixonar. São reuniões onde se amansam saudades e depois se tornam motivos de conversas e comentários por alguns dias até que se pense em marcar uma próxima reunião. Mas há festas que são apenas reuniões de boçais, onde o motivo da reunião é nada mais do que o desfilar de imbecilidades, vaidades e soberbas.

Esta era a festa onde foram convidados Agripino e sua intrépida troupe. Na verdade o único convidado foi o Agripino, amigo ou parente, isso ainda não esta claro, que era da Dona Creusa, também chamada de Duquesa pelos donos da festa uns novos ricos e velhos escrotos da Viera Souto. Agripino recebeu o belo convite com RSVP e o escambau que o Anastácio traduziu como Reis e Súditos Venham com as Putas. Um babaca.

Agripino que tinha sido instruído pela Creusa sobre as normas de etiqueta, confirmou a sua presença e mandou pra tinturaria o seu melhor terno e camisa. A gravata que tinha não combinava com nada e produzia um laço gigantesco e multicolorido e ele não tinha muita certeza se aquilo ainda era moda. Achava horrível e aquilo não devia combinar, ele estava certo disso, com a classe pedida. A calça com boca de sino e pescando siri, essa sim estava na moda. Ele tinha certeza. Se bem que a ultima vez que Agripino tinha se ligado em moda foi quando comentou os figurinos do O que vento levou. Na falta da gravata pegou uma bela echarpe de seda de sua mulher ou foi um pedaço de uma antiga cortina da sala, não se sabe bem, e fez um laço pomposo por baixo da camisa. Comprou um pote de gumex e amassou seus cabelos rebeldes. Se olhou no espelho e adorou o visual refletido. Parecia uma lesma lavada. Estava uma merda, mas ele achava que estava elegante.

E ainda por cima se besuntou com um perfume que a sua mulher, a craque do jerimum com quiabo, lhe tinha dado. Manja aquele perfume Branca de Neve? Pois é, o dele tinha vários anões mortos. Um cheiro de merda. Tava com um cheiro de puta barata.

Kraus também achou uma bosta a roupa dele mas adorou o perfume. Mas não disse nada. Se prontificou a servir de motorista e sua argumentação era que um motorista vestido elegantemente poderia impressionar qualquer conviva dos famosos que certamente estariam por la e ainda por cima ele tinha carro, um argumento muito convincente naqueles duros de merda. Na verdade ele queria ir a festa e essa era uma boa desculpa. Agripino disse que tinha um belo e elegante quepe de motorista que tinha comprado em uma casa de penhores e que tinha pertencido, segundo o vendedor primo do Anastácio, ao motorista do Buckingham Palace. Todos prontamente aceitaram, já que estavam totalmente alcoolizados. Agripino achou que aquela besta de mais de dois metros de altura, vestido sobriamente de preto e com um quepe elegante e soberbo impressionaria até a Rainha Elizabeth. Mal sabia ele que o conceito de elegância do Kraus era algo extravagante, pra dizer o mínimo. Ele ia de macacão rosa sem mangas, bem justinho, botas de cano alto e maquiado como a rainha diaba. Uma deusa ou uma demônia, sei la. A única coisa austera dessa gigantesca viada era o quepe que esse sim era preto e elegante. Mas convenhamos. Seria algo que passaria totalmente despercebido naquela montanha de boiolice explícita.

Anastácio ia de penetra e portanto não precisava de convite.

Mesmo porque, canalha que era, já tinha roubado o convite do Agripino. Ele que se vire em ter que explicar cadê a porra do convite que seria pedido na entrada. E como o convite era para acompanhante também sem citar o numero de acompanhantes, ele já tinha convidado quatro putas das mais extravagantes.

Cleofantas por seu lado, tinha recebido uma incumbência de morte e o cliente que no dia seguinte se transformaria em ex alguma coisa, estava na lista dos convidados. Então ele estaria la. Como malocar a enorme pistola com silenciador era uma tarefa quase impossível. Se lembrou de seus dias de economista e no melhor estilo Papillon, enfiou a pistola no cu e resolveu o problema. Porque teve que se lembrar dos seus dias de economista para efetuar tal dolorosa tarefa é um mistério. Mas assim foi.

E o Tomás? Se fosse ia dar merda. Ia começar vociferando contra o pobre maître encarregado de controlar o acesso e conferir os convites, algo essencial nas festas de hoje onde a quantidade de bicões, penetras e outros canalhas que tentam entrar nessas festas prive é avassaladora. E quanto mais prive mais tentam.  O tal maître ser chamado de São Pedro de merda seria o mínimo que aconteceria, sem contar as observações nada sutis e calmas que aconteceriam na festa propriamente dita, caso ele conseguisse passar sem arranhões pelo maître que, imagino eu, deve ser alguém de porte e autoridade algo intimidadora.

Portanto esconderem dele a informação. Só que Tomás lia tudo e a noticia de festa tão fastuosa já estava nas colunas de fofocas e quando Tomás soube que seus amigos estariam la, ele fez os planos para la estar também. Tinha prometido à sua suave morena de olhos verdes e lábios carnudos, uma distração diferente fora da cama. Ia dar merda.

A festa foi organizada pela Duquesa e foi lindamente organizada.

Eram trezentos convidados escolhidos de acordo com a conta bancária em primeiro lugar e a ascendência nobre em segundo lugar, a fama em terceiro lugar e o exotismo em quarto lugar. Tudo muito bem misturado e equilibrado como uma boa festa deve ser. A elegância e o exotismo estavam assegurados em termos de presença e todos, absolutamente todos, confirmaram presença e foram todos rigorosamente instruídos a apresentar os convites na entrada. Os convites eram a prova de copia. Eram chiques, com números dourados e um chip invisível. Impossível copiar. E depois a própria Duquesa estaria discretamente na porta controlando a entrada e como conhecia todos os convidados, puta velha que era, a ultima barreira era ela, pronta a resolver qualquer improvável pendência.

A ninguém foi sugerido tipo de roupa. Os classudos e elegantes convivas sabiam muito bem o que vestir. Eram gente acostumada a festas. Eram boçais de nascença.

O maitre de cerimônia, o que conferia os convites, era um antigo mordomo de Mônaco. Sujeito extremamente educado, poliglota, sóbrio, com classe e um animal de forte. Tinha um séquito de doze ajudantes que o cercavam e ajudavam a abrir as portas dos carros, todos com motoristas, essa era uma praxe comum, ajudar as mulheres com seus longos, indicar o caminho, tudo feito com classe e discrição. Mas com firmeza. Eram todos ex mossad ou ex alguma boçalidade qualquer que denotava a brutalidade latente. Eram todos uns animais, quando fosse necessário e mesmo quando não fosse. Nunca se sabe. Em compensação, nunca tinham visto e nem tratado ninguém como o Kraus, o próprio Armageddon. O Kraus era foda, como rapidamente eles se dariam conta.

Tinha um outro grupo de vinte e cinco animais menores mas mais brutais que cuidavam da segurança do entorno. Esses tinham carta branca para afastar qualquer ser estranho à festa e afastar não necessariamente com tato. Era na base da porrada mesmo e não se descartava tiros, chutes e pontapés na massa ignara que insistia em circular pelas redondezas, talvez sem saber que os donos do poder festejavam por perto. Um grupo de advogados estava a postos para resolver qualquer reclamação jurídica, caso houvesse. Pouco provável. A brutalidade normalmente dispensa acertos legais.

O contorno acertado, era hora de cuidar do interior. E o interior começa com os serviçais. Em cada mesa, havia maîtres, ajudantes e copeiras de apoio que serviam a francesa todos os pratos, aquela frescura de tirar o prato pela direita e colocar o outro pela esquerda, já devidamente servidos de comida em porções mínimas, delicadas e elegantes. Uma merda pra quem ta com fome. Mas a elegância assim mandava. Os servos não deixavam nada ao acaso, todos controlados por uma equipe de capangas, quer dizer, de maîtres e sommeliers com suas enormes medalhas no peito ostentando o seu enorme conhecimento e empáfia. Os sommeliers eram encarregados de servir os precioso líquidos de nomes complicados. Eram chateaux, domaine, reserve e que tais. E sempre tinha algum imbecil, acostumado a beber água da bica que arrotava conhecimento, sabores e essências que nunca ninguém tinha ouvido falar. Mas todos faziam cara de jubilo e concordância. Eu acho que depois da terceira taça, era servido Sangue de boi. Não sei, suspeito.

Os copos eram de cristal da boêmia. Finíssimos e de diversas cores e tamanhos, um para cada tipo de bebida. O pratos eram de porcelana Limoges e era de uma coleção que tinha vários desenhos diferentes em cada um dos pratos. Eram exclusivos e cada um valia uma pequena fortuna. Se alguém quebrasse algum deles e por alguém é claro me refiro aos serviçais, seriam espancados e trucidados e teriam que assinar um papagaio pra pagar aquela merda durante o resto de seus miseráveis dias. Tudo normal. Estavam todos apoiados em belíssimos e impecáveis suportes de prata com bordas ornamentadas que repousavam sobre lençóis de mesa de fina renda portuguesa e todos com pequenos chips a prova de roubo. Rico adora roubar. As mesas impecavelmente ornamentadas com castiçais pequenos de prata, ornamentados por suaves velas e discretos jarros de flores exóticas que ficavam abaixo da linha de contato visual entre os comensais. Tudo elegante, discreto e caro.

A comida escolhida pela Duquesa era um dos mais sofisticados manjares dos deuses, um capitulo aparte. Tinham as bebidas, Champagne extra brut, Krugs e Bollinger, Whisky blue label, vinhos Gevrey Chambertain, Cheval Blanc, Domaine Romané Conti, Chateaux Margaux, Licores soberbos, conhaques antigos. Impecáveis caixas de chaurutos Partagas, Hoyo de Monterey, Cohiba e Monte Cristo para os cavalheiros e algumas damas mais ousadas. O caviar beluga do mar Cáspio, com discretas porções de manteiga e sumo de limão que eram regadas nas porções servidas. Camarões de vários tipos, lagostas, percebes, patês trufados, carnes de kioto, perdizes, peixes de nomes estranhos e receitas e molhos finamente elaborados perfumavam o ambiente. Havia belas cestas de frutas exóticas, discretas e coloridas, por todo o salão. As sobremesas era um acinte aos diabéticos. Sorbetes de chocolates, doces extraordinários, suaves cascatas de mel e líquidos misteriosos que brilhavam no seu derrame encima das guloseimas que serviam a cada conviva. Tudo perfumado. Tudo impecável. Tudo perfeito. Uma equipe numerosa de chefs, cozinheiros, ajudantes, subchefes, tumultuavam as cozinhas montadas, com suas enormes panelas, fogo impetuoso, ordens gritadas, especiarias espalhadas, pratos servidos elegantemente montados, em um caos organizado.

Estava tudo dirigido e pensado para a perfeição.

A festa era em um dos mais belos e exclusivos endereços de beira mar, na elegante cobertura duplex.

Seria a redenção da Duquesa, a sua tour de force, a sua ressurreição para a sociedade. Não que ela precisasse, mas uma ressurreição até que pegava bem, pensava a Duquesa. O JC que o diga.

Mas eis que no horizonte os trovões se ouviam e anunciavam uma tempestade das brabas.

A intrépida troupe chegava.

(segue)

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