A tortura e as atrocidades dos outros

Posted on 09/06/2012

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Tomás chegou quietinho e sorumbático. Andava amuado, pelos cantos, solitário, nestes últimos dias. Nem parecia que lia mais. Logo ele com uma enorme paixão por qualquer leitura.

Era mal de amores.

Agripino lia por ele e comentava.

Anastácio estava inquieto.

 

– Ha um autor que diz que as atrocidades contra os direitos humanos são sempre cometidos pelos outros nunca por nós não importa quem merda sejam os outros. (Ideal Illusions: How the U.S. Government Co-Opted Human Rights, James Peck, Metropolitan Books, 2012).

 

– Uma interessante observação.

– A quantidade de gente que é morta por simples divergência de opinião é assombrosa. A mídia ocidental cínica como sempre se preocupa e divulga os demônios conhecidos e que são aceitáveis dentro da perversa política de negócios de quem manda nestas mídias. Liberdade é apenas um rótulo que vende porque soa agradável. A regra é, se há negócios sendo feitos, vamos olhar para o outro lado e mandar bala a quem protesta. Os crimes de guerra na bósnia são crimes de guerra. Os crimes de guerra dos estados unidos no Iraque são batalhas pela liberdade. Quem rotula estes crimes? Nunca as vitimas que são as mesmas. È o interesse comercial.

 

– O interessa pela grana, né? Tem algum pra me emprestar, Agripa?

– Vai a merda. Pra que merda vc quer ter poder ou ter tanto dinheiro assim, muito mais do que vc será capaz de gastar pelo resto de seus dias? È pelo poder. Pelo reconhecimento. Todo mundo quer ter seus 15 minutos de fama, como vaticinará Andy Warhol e de preferência esticar estes 15 minutos ad infinitum. Só que isso acontece com a fama. Quando vc faz merda é um pouco mais do que os 15 minutos. Claro, isso quando vc é julgado como um perpetrador de alguma merda. Diferente do feito da merda em si. O problema não é fazer merda. O problema é ser rotulado como alguém que fez merda. E essa rotulação é subjetiva. Mas basicamente depende do negócio envolvido. Se é mega negócio nunca é merda. È luta pela liberdade.

 

– Luta pela merda. È só uma merreca, Agripa….Na boa….

– E depois tem o saco. Ninguém tem muito saco para pesquisar e procurar saber as verdades das coisas. Pra que? Aceito que é assim e pronto. Até arder meu cu. Ai eu tomo uma posição. Compro uma pomada contra ardido ou vou a luta. Depende do meu espírito. E quase sempre o meu espírito tem ascendência Porcina.

 

– Porcina, esse o nome dela….Só do motel e pra umas cervas que levanta o animo….Semana que vem ta devolvido…

– Recentemente foi publicado no Brasil uma pesquisa sobre tortura. Segundo essa pesquisa, 47% aprovam o uso de tortura policial para se obter alguma informação principalmente em casos de sequestro. Não sei a credibilidade dessa pesquisa e não entendo a metodologia de se extrapolar uma pesquisa feito dentro de um universo restrito a um universo total. E pouco importa. O fato é o seguinte. Nas mais de 2000 pessoas entrevistadas, 47% aprovam o uso da tortura. Claro que não neles, os entrevistados. Seria interessante saber quantas dessas 2 mil pessoas eram ex torturados e quantos eram torturadores. Faltou essa pergunta. Não sei, mas acho que faria diferença.

Essas questões já foram levantadas e discutidas pelos filósofos, os profissionais da arte de pensar e são sempre discutidas. Seriamente, digo eu e não rasteiramente como fazem alguns. O problema dos direitos humanos passa por ai. Direito humano esta intimamente ligado aos negócios.

 

– Direito humano é fuder no sábado a noite…

– Essas questões são éticas e quando digo ética há que se entender que merda quer dizer ética.

 

– Conheço Èrica, ética ainda não…..vamu la Agripa….um galo ta bom…

– Que merda tu faz com um galo?

– Compro as cervas e a Porcina paga o motel.

– Que falta de cavalheirismo. Se fosse eu, não aceitava isso não.

– Ela não aceita não. Nem sabe que vai pagar…

– Tu sabe o que é ética? Pra mim é simples. Pega a pessoa que vc mais ama. E olha o teu comportamento com essa pessoa. Essa é a tua ética. È esse comportamento que vc tem que ter com todos.

 

– Eu não amo ninguém Agripa. Só como…

– Vamos imaginar um cenário. Vc admite a tortura contra alguém que pode ter uma informação precisa e fundamental para resolver um grave problema. Um terrorista que tem informação sobre uma bomba que vai matar uma porrada de gente ou algo menos prosaico. Um bandido que roubou seu colar e escondeu e vc quer saber onde merda esta o seu colar. Numa dessas hipóteses vc provavelmente faz parte daqueles 47% dos entrevistados. Aceita a tortura e as vezes, dependendo do seus espírito, até aceita ser o torturador.

 

– Eu não torturo. Só faço sexo…

– O problema neste casos são vários. Um, vc acha que pode obter resultados do sujeito torturado. Vc não tem certeza que ele sabe alguma coisa e nem sabe se ele vai dizer algo ou se ao dizer algo vai estar dizendo a verdade. Vc não tem certeza. A única certeza é a porrada. Mas vc paga pra ver. Tortura pra saber. Uma estranha forma de saber, mas enfim. Mas vamos admitir que vc sabe que o sujeito sabe. E ele não quer contar o que sabe. Porra, isso é sacanagem, sob seu ponto de vista. O torturado também acha que é sacanagem ser torturado mas quem tem o poder é vc portanto a sacanagem só existe de um lado. Vc precisa da informação. A informação vai salvar a vida de uma porrada de gente inocente ou recuperar o seu colar de bosta.

Então o que fazer?

 

– Me emprestar um galo já resolve. A solução é essa…

– Pra começo de conversa vc já fez uma escolha moral. Vc já escolheu que a vida de pessoas inocentes vale mais que a de uma pessoa. Essa escolha já foi feita. Vc vai aniquilar e machucar um ser humano para esse fim. Vc é um filho da puta. Aceite isso. Vai salvar uma porrada de gente se conseguir a informação, mas é um filho da puta. Ta claro?

 

– Clarissimo. Agora solta ai, vai….

– Bom, vamos em frente.

– Ai que saco….

– Vamos imaginar que vc tem certeza de conseguir a informação. Na verdade vc não sabe se vai conseguir. A única certeza que vc tem é que vai fuder com o cara. Que vai satisfazer o seu instinto animal. Não importa. Vc é um profissional da tortura. Sabe como conseguir verdade e sabe todos os truques dos torturados. Sabe como infligir dor e humilhação. Ou seja, vc acha que a dor e a humilhação são aceitáveis. O bem maior é a vida. Certo?

Vc acaba de estabelecer um padrão ético. E ao mesmo tempo, vc estabelece que vc é o executor desta tarefa. Cabe a vc ser o juiz e o verdugo. E vc é bom no que vc faz. Vc priva o sujeito de sono, não da comida, finge afogamentos, aplica surras homéricas, quebra seus dentes, quebra suas pernas e seus braços, aplica injeções dolorosas, ameaça matar seus filhos, tortura seus filhos na frente dele, estupra a mulher na frente dele. Tudo pra ele dizer o que vc quer. Vc não tem limites na sua busca pela verdade. Não tem sentido ter. Certo?

 

– Adianta dizer que não ta certo?

– E vc acha tudo bem. Ta fazendo o certo. No final, conseguindo ou não a verdade buscada, vc vai voltar pra sua mulher, seus filhos, dar beijos de boa noite vai fazer amor com sua mulher e a encher de carinhos. Certo?

 

– Caralho Agripa. Ta engarrafando meu bizu…

– Vc não fez nada de errado. Segundo sua ótica. Ha um bem maior que foi perseguido. Essa é a cabeça de muito torturador. Essa é a cabeça de muito daqueles que fazem guerras e mandam lançar bombas em um monte de lugares considerados hostis. Essa a cabeça destes ditos lutadores da liberdade. Como vc combate isso? Isso levando em consideração que vc quer combater isso. Porque vc pode concordar com esta postura e achar isso tudo normal e aceitável. Vc pode querer mascarar alguns aspectos, digamos, mais violentos e escabroso dessa pratica, mas no fundo vc acha tudo isso aceitável. Isso acontece por uma simples razão. Vc considera que o torturado ou os alvos, não são seres humanos dignos de participar do seu grupo de seres humanos. Vc é um racista além de ser um filho da puta. Mas isso já foi determinado. Estamos de acordo?

 

– Perfeitamente. Mas eu adoro uma crioula bunduda….

– Vc acha isso aceitável. Acha isso normal. Ou seja, vc é um animal. Igual a todos os animais da vasta zoologia.

– Ta bom eu sou esa caralhada toda. Agora vai…solta ai essa merreca, Agripa….

– Eu acho o seguinte…

– Ai meu caralho…

– Porque esconder isso? Chegue em casa e receba o carinho dos filhos e de sua mulher e mande lavar o avental cheio de sangue do seu cliente torturado. Conte pra seus filhos como foi seu dia de trabalho e o que vc fez. Conte os gritos e a dor. Mostre alguns dentes partidos que vc traz como lembrança. Porque esconder? Vc fez o certo, segundo seus padrões. Seja quem vc for, os seres humanos tem o direito de saber quem vc é. Se vc é um filho da puta, coloque na sua carteira de identidade. Fulano de tal, filho da puta, torturador e sádico. Sejamos específicos neste mundo de perfis. Sejamos verdadeiros.

 

– Eu nem sei mais quem merda eu sou. Só sei que tou fudido…

– Não se trata aqui de ser certo ou errado. Se trata de nominar.

Somos todos combatentes da liberdade. Alguns são teóricos outros são pragmáticos e outros são homens de negócios.

O nosso perfil não deve conter mentiras. Alias, isso esta implícito em qualquer manual de preenchimento de perfis. Vc jura que o que esta escrito é a expressão da verdade. Porque não acrescentar alguns campos mais específicos? Porque esconder? Coloca la. Masculino, feminino, e uma outra opção, sei la. Coloca no caso em questão, torturador platônico, torturador pragmático, torturador bissexto.

 

– Eu coloco duro….

– Se eu acho correto torturar algum ser humano em determinada circunstancia, vamos dizer isso claramente, com nome e CPF. Eu sou um torturador. E esta dito. Se esconder sob um falso manto de bondade é o caralho. E vamos continuar discutindo éticas e comportamentos sociais no seio das pessoas que acham isso importante. Vamos discutir a condição humana em quem valoriza a condição humana. Toda ela e não apenas partes. Esses questionamentos sobre éticas e praticas comportamentais é antigo. O imperativo categórico de Kant ao querer que as ações morais sejam universais, o conceito da maldade e o livre arbítrio do Santo Agostinho, o conceito de felicidade em Aristóteles e seus exageros, por assim dizer, nos epicuristas, e na razão de ser humano em Platão onde eles só se justificam dentro das polis, como organização social, as aventuras do Tintin, lidas no original.

 

– Tintin eu manjo…Ele vive emprestando grana pros seus amigos…

– Todas estas leituras e todas estas questões foram debatidas e continuam a ser debatidas. É interessante ler o que estes caras pensaram. Afinal eles são os profissionais do pensamento. Só fazem isso e eu acho sempre bom ler o que os especialistas dizem. Se há lógica em se procurar um bom profissional pra consertar a liquidificadora, eu deveria também procurar um bom profissional para entender que merda foi pensado sobre esta determinada situação. E ao contraio do que muitos pensam, não são os colunistas de merda que poluem os jornais que sabem. E nem muito menos os editorias. Assim como há copias piratas do ultimo disco de sei la quem, os colunistas, revistas e jornais são os piratas do pensamento. Vendem merdas a preço de banana dizendo que não é merda. Mas merda é, como descobrimos ao ler.

 

– Que merda…..

– São os filósofos os especialistas do pensamento e mesmo lendo alguns que vc não concorda, a lógica e a elegância na construção do raciocínio esta la. Procurem. Há alguns bons, chamados Sócrates, Aristóteles, Platão, Nietsche, Marx, Shopenhauer, Espinosa, Sartre, Unamuno, Descartes, Ortega y Gasset. Nenhum deles escreveu na veja ou no globo. Tai uma boa dica. Mas se vc faz parte dos 47% da tal pesquisa que aceita torturas, vá a um posto da IFP ou do DETRAN e mude sua identidade. Mande colocar la. Torturador classe 1, 2, 3, 4 ou 5. Há vários níveis. Depende de sua boçalidade. Mas coloque a palavra torturador. É importante se identificar. E se vc defende essa pratica, qual o problema? Diga em alto e bom som e estampe isso em um documento. Se vc acha correto essa pratica não há porque se envergonhar. De repente até consegue pagar meia entrada em cinemas. Nada mais lógico se vc esta apto a cortar o sujeito ao meio.

 

– Corta a minha Agripa…

– Tu não ouviu nada, né?

– Ouvi tudo com atenção. E a crioula vai se apaixonar por mim quando eu repetir o que tu disse. E tu ouviu o que eu pedi?

– Olha aqui seu canalha de carteirinha. È o ultimo galo que te empresto. Sacou?

– Saquei, saquei….Deus te pague irmão….vc é um Deus..

– Deus não, é tu que vai pagar…

 

Mas o Anastácio nem ouviu. Ja estava na esquina encantando a crioula estonteante, cheio de mãos e verve.

Ia ter sexo em algum lugar destas redondezas. E quem ia pagar as cervejas e o Motel era ela.

Anastácio era um canalha.

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Posted in: ASSIM É A VIDA