Armelindo del Toboso

Posted on 20/06/2012

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Armelindo Del Toboso tinha um nome estranho mas compensava com uma alma do tamanho do mundo. Armelindo não era lindo e nunca tinha sido, nem de bebe. Quando nasceu o confundiram com um protozoário de cepa sem registro e foi catalogado como descartável. Seu forte choro chamou a atenção de uma atenta enfermeira e a sua bondade o salvou. Se tratava de um ser humano. Feio de doer mas ser humano afinal. Sua querida e doce mãe o amou mesmo assim mas teve dificuldades em ter o carinho de seu pai. Certamente também o amou mas nunca consegui embala-lo nos seus fortes braços a caminho do sono. Além de feio chorava muito o que fez seus pulmões terem um sensacional desenvolvimento e com isso se tornou um tenor. Um tenor de merda, mas um tenor mesmo assim. Cresceu uma figura gigantesca, tosca, forte e continuava feio. Cantava nos palcos da vida, nos manicômios, nos hospitais nos orfanatos, em todos os lugares onde os seres humanos eram tratados ou desprezados. Armelindo era um sujeito bom. E tinha uma rara habilidade. Era um poeta.

Um dia Armelindo chegava em casa depois de recitais em que machucava ouvidos sensíveis mas aquietava com sua ternura as almas solitárias.

Encontrou na soleira de sua porta a Andresa, uma deusa que tinha descido dos céus e perambulava na terra dos mortais.

Por esses estranhos desígnios do destino, Armelindo se encantou pela Andresa e Andresa por ele. E assim se cassaram. Tiveram lindos filhos e nesse ponto Armelindo deu graças a deus sua genética não ser a mandante.

Armelindo escrevia sempre pequenos bilhetes em folhas de papel de pão, amassadas, que deixava na cama depois do sexo da noite anterior. Eram apenas manifestações do seu espírito que guardavam lembranças do seu eterno e incomensurável  amor. Falava de paixão, de sexo, de tesão, das pequenas tolerâncias que povoavam a sua saudade. Pequenos segredos de suas cumplicidades.

Armelindo sabia fazer sexo e o fazia com paixão. Pegava o corpo de sua Andresa e o desvestia com ternura e tesão. Dava atenção a todas as partes de sua vestimentas, desde o pesado casaco que Andresa usava nos dias de inverno até a calcinha alva e mínima que moldava seu escultural corpo, a ultima fronteira do gozo anunciado. Mais que desvesti-la, a despia. Gostava de acariciar todas as suas sinuosidades e o fazia com vagar, passando suas pesadas mãos, que se tornavam doces e suaves, pela sua nudez despudorada e indefesa, como que redesenhando todas as curvas e entranhas de seu doce corpo. Armelindo a possuía com uma doçura e uma violência que só a paixão são capazes de perpetuar. Andressa era violentada, estuprada, invadida e se sentia amada e adorada com os beijos languidos e fortes que invadiam a sua boca e sugavam a sua essência e a levavam ao êxtase do gozo. Passavam horas se estreitando e se confundindo, seus corpos nus criando raízes e ternura e gritavam palavras desconexas, soltando suspiros de tesão, se amando pra além do razoável. E no final Armelindo sonhava abraçado e ela ficava deitada nua, entre os lençóis violentados, arfando e feliz e ainda sentindo as fortes mãos do Armelindo por todo seu corpo em êxtase e ainda a possuindo.

Um dia Andressa não voltou pra casa. No começo Armelindo apenas se desesperou mas depois, com o tempo, perdeu o juízo.

Procurou amigos, conhecidos, lugares frequentados. Andou por lugares nunca antes andados e perguntou a todos perguntas que não faziam sentido a ninguém. Mostrou fotos, cheiros, pequenas mechas de cabelos. Mostrou roupas e lembranças de sua paixão. Andressa tinha sumido da face da terra.

Anos se passaram e as crianças cresceram lindas e independentes. Armelindo tinha se perdido também, andava pela casa chorando pelos cantos quando seus filhos dormiam. Não mostrava suas tristeza e seu abandono a ninguém e cercou seus filhos de ternura e paixão. Não esqueceram mas não os fazia lembrar.

Seus filhos tiveram seus filhos e ele herdou os seus netos e adormecia com eles contando as historias formidáveis dos personagens de sua infância.

Ainda chorava quando um cheiro ou uma breve lembrança mexiam na lembrança de sua Andressa. Mas chorava menos e as vezes sorria com o carinho dos seus.

Envelheceu como acontece a todos e esperava a morte com paciência mas sem pressa.

Já no fim de seus dias em uma dessas esquinas dos sonhos, em um breve momento de consciência, encontrou a sua tão adorada e sentida Andressa, linda e exuberante como sempre tinha sido.

Ficaram em silencio como só dois amantes conseguem ficar, curtindo as suas saudades, abraçados e felizes.

– Eu te amo meu Armelindo.

A morte o surpreendeu com um sorriso no lábios.

 

Não é conveniente se apaixonar por deusas. Amar nem pensar.

 

 

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Posted in: ASSIM É A VIDA