O impeachment Express e o pragmatismo das alianças.

Posted on 25/06/2012

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O dia era ensolarado com temperatura gelada. Fazia uns 20 graus positivos, uma barbaridade digna do ar polar. Se esperava encontrar dobrando a esquina algum urso polar em busca de alguma foca ou de um carioca desavisado.

No gelado balcão do portuga, estavam sentados tiritando, Agripino o priapico filósofo, sorvendo sua caneca de vinho quente, Tomás o ranzinza descabelado que bebia uma cachaça misturada com chocolate e canela, Cleofantas o assassino frio bem a propôs, que a todos observava bebendo seu chimarrão com cuia de prata e bomba em forma de faca pontiaguda, Dona Creusa a elegante grã fina, outrora uma duquesa, bebendo elegantemente uma xícara de chá em uma xícara de fina porcelana surrupiada da ultima festa e o Anastácio, o canalha pulha que filava de todos e  que comia a cunhada paralitica e a nora, freira carmelita em constante clausura. Dizem que se fantasiava do espírito santo para suas lúbricas aventuras nos claustros e a primaz do convento, tinha um especial gosto por esta aventurosa visita que lhe deixava a beira do paraíso. Anastácio era um emérito canalha e tinha sido ex-comungado pelo Vaticano e condenado a morte pelo grão vizir de Meca.

O único ausente era a gigantesca figura do Kraus, o anarquista boiola que andava dando o cu pela Sibéria, segundo as ultimas noticias não confirmadas.

 

No fundo do boteco, três pinguins bebiam em silencio, talvez com medo do urso polar que andava pelas redondezas.

Todos se trajavam conforme a ocasião pedia.

Ridiculamente.

Era uma mistura de cores e tecidos amontoados de forma desorganizada em todas as partes do corpo, que fariam corar de vergonha qualquer estilista que por la se aventurasse. Ou talvez lançassem moda. Haja visto o estranho e maluco desfile da ultima coleção de inverno onde as manequins famélicas e anoréxicas mostravam roupas que pareciam saídas de um circo galáctico futurista. Os homens vestiam roupas que fariam a alegria do Kraus.

 

– O Tomás, tu que lê, o que merda aconteceu no Paraguai?

– Epa, que porra é essa Anastácio? Eu também leio.

– Claro velho Agripa mas se não fosse aquele gostosa Paraguaia que tu andou comendo e as apostas que tu faz no jóquei no cavalo paraguaio, nem ia saber aonde fica o Paraguai.

– No Paraguai chamaram o UPS pra entregar com urgência o impeachment Express delivery.

– Que porra é essa?

– Negócio seguinte. Pediram uma pizza alho e óleo e como não tinha, a massa tava em falta, entregaram um tal de impeachment. Mas tinha que ser rapidinho. Igual ao sexo que eles fazem. Vapt e vupt. Tiraram o Presidente em 48 horas.

– E pode?

– Pelo visto, la por aquelas bandas, pode.

– E o que ele fez?

– Fora ser o Presidente eleito democraticamente pelo voto popular com mais um ano de mandato, nada.

– Mas aquilo la não é um pais com democracia?

– La só chegaram os três primeiros volumes da enciclopédica britânica. A letra D ainda não mandaram.

– Alguma deve ter feito. Nem despejo com justa causa no morro em maloca de traficante leva 48 horas.

– Tou te falando meu chapa. Botaram o cara no tatacua e assaram a sua mariola. Tudo em 48 horas. Zéfini. Diendi.

– Que porra é essa de tatacu?

– È como chamam o congresso de la. Uma merda de forno popular feita com estrume de cavalo.

– Isso ta me cheirando a coisa de cu mal resolvida.

– Metade da humanidade passa a vida julgando a outra metade e a metade julgada acha tudo isso muito injusto. A terceira metade acha que os dois tem razão e nenhuma das varias metades se importa com a grande cagada que resulta. Os únicos preocupados com cagadas são os fabricantes de papel higiênico.

– E qual a consequência dessa merda toda?

– De que?

– Da porra da pizza impeachment paraguaia, oh Tomás.

– Isso é cavalo paraguaio. Não da em nada. Só quem se fode são os de sempre. Tu.

– Eu? O Agripa, sim que agora a Paraguaia dele sifu. Eu vou é bater um papo com os Pinguins.

– Um dia eu assisti a uma discussão de um sujeito inteligente com um burro, que mais tarde deduzi, ser um imbecil. O inteligente, um teólogo defendia a sua fé e aportava inteligentes observações de lógica e sutilezas a sua fé. Eu não acredito em Deus e nem ele acredita em mim, acho eu, mas o burro que ouvia, afirmava que tudo aquilo era pura besteira. Deus não existia e estamos conversados e não adianta ouvir defesas e lógicas que a verdade esta estabelecida. A verdade dele, claro, se esqueceu de afirmar. A questão não é concordar ou não. A questão é observar a lógica e a sutileza. Isso se vc for inteligente. Burros só ouvem o estalido do chicote e vão em frente não sabem bem porque.

 

– Tem que mandar alguns chicotes pro congresso de la.

– Não vão saber pra que serve. Burros só entendem e temem o estalido.

 

– O que tu acha do Lula e o Maluf, Oh Agripa?

– Isso serve pra la e pra aqui. Neste mundo profundamente instável e injusto cheios de atos de bravura e solidariedade pouco noticiadas, o grande capital na mão de poucos, muito poucos, sempre mandou sobre a enorme quantidade de seres humanos que vivem sob o jugo destes patrões que impingem e mandam nas nossas vidas. Todo mundo razoavelmente inteligente e sensível sabe disso. Vc pode até estar contente com o nível de vida conseguido através de lutas e esforço mas vc vê injustiças e miséria a sua volta, talvez não causados pelos seus atos mas sim pela sua indiferença, e não pode ficar insensível. A não ser que vc pratique um autismo social pesado. E na verdade, esse autismo social, é o que o ritmo e a vida moderna deste sistema te ensinam e inexoravelmente acaba te empurrando aos seus braços.

 

– Autista? Que porra é essa? É quem gosta de carro?

– Um dos sintomas deste autismo é quando vc começa a criticar sem razão outra que a antipatia perversa a pessoas que lutam e sempre lutaram pela melhor sorte de seus semelhantes, que por coincidência estranha são os humildes. E critica e sente raiva não porque te fizeram algum mal mas porque se entregaram a algo que vc não é capaz. Mudam e te tiram de tua área de conforto. E isso da raiva. Não é muito difícil perceber esta raiva. A critica sempre é feroz, humilhante e degradante e sempre ridiculariza personagens como se isso fosse um argumento definitivo. Nada mais é do que mera boçalidade. Mas vamos ser dicotômicos.

 

– Porra Agripa, tu ta complicando a guerra. Eu sou é espada…

– De um lado da humanidade estão os que tem e do outro os que não tem e por ter vamos definir que ter, quer dizer condições de vida digna, o mínimo dentro da escala de humanidade.

Quem não tem, tem que ter alguém que pelo menos pense neles e depois do pensar tem que ter alguém que faça por eles. Não é fácil, ha que se convir, para este que não tem passar a ter. Isso por uma questão de falsa lógica. Quem tem não quer deixar de ter e deixar de ter para quem tem, significa distribuir o que se tem. Erroneamente e sem nenhuma lógica, para quem tem, o ato de distribuir pressupõe o ato de não ter mais. E todos passariam a não ter, assim pensam. Isto não necessariamente é verdade.

 

– Aqui ninguém tem, menos o Cleofantas. Esse tem culpa no cartório…

– Se não vejamos. Nas sociedades modernas o ato de ter pressupõe sempre uma ação para se ter. E esta ação sempre é coletiva. A junção de diversas forças, permitem se ter. Assim funciona o sistema. Certo? Vc só tem porque todos trabalham para ter. Certo? Vc não consegue nada sozinho. Certo?

Pela lógica exponencial e dentro do raciocínio que o ter significa um trabalho coletivo, quanto mais trabalham para ter, mais pessoas terão. Certo? Em sendo isto verdade, porque não se trabalha para inserir mais pessoas no trabalho coletivo? O meu prejuízo é zero. Ao contrário. Porque eu critico quem luta para que mais pessoas tenham o que nunca tiveram?

 

– Eu luto pra ter mais muié na minha aba…

– É difícil ganhar e por ganhar eu quero dizer colocar em pratica políticas igualitárias que defendam os que nada tem ou pouco podem, a grande maioria, contra o grande poder dos que muito tem e podem mais ainda. E quem tem a capacidade de enfrentar estes poderosos grupos? Em tese, somo todos nós, pessoas sensíveis e que lutam por ideais igualitários e solidários. E quando este bando se organiza, formam o que se chama governo. È a forma eficaz de por em pratica os ideias pensados. Ser governo. As vezes o governo é dominado por estes grupos poderosos. Eles usam de suas influencia para mandar e nestes casos há uma cumplicidade dos meios de comunicação que calam porque é interessante ter gente poderosa de seu lado. A imprensa nunca briga com o poder. Há casos em que os governos atendem as aspirações populares e fazem algo de bom para o povo e nesse caso normalmente há uma grande grita das forças de oposição, os conservadores, na forma da imprensa, que defendem o grande capital e os direitos conquistados de poucos. Conseguir estabelecer um governo popular que coloque em pratica ações sociais de resgate de uma enorme parcela da população que nada tem e colocar do teu lado os poderes que sempre mandaram e mandam e que podem te manter, bem ou mal, no centro do poder, é difícil mas possível. Como o Lula mostrou para grande espanto e raiva dos que pensam diferente. Dizer que ele usou o plano do FHC para conseguir isso é não entender que a economia não é uma filosofia. A economia é uma arma, um instrumento, uma ferramenta, que coloca em pratica uma filosofia. Uma diferença sutil.

 

– E a Erundina?

– E qual o crime do Lula? Trabalhar para tirar da miséria uma porrada de gente. E como se faz isso? Cedendo certos privilégios aos donos do poder e manter esse pessoal relativamente calmo. Mostrando que talvez possam perder algo mas esse algo é muito pequeno para as suas necessidades e mesmo assim, nós vamos pagar desde que vc nos deixem fazer o que temos de fazer que é cuidar dos pobres. Combinado? E como vamos pagar? Colocando mais gente que nada tem, para ter alguma coisa e com isso aumentar o numero de pessoas que tem. Todos se beneficiam.

 

– Sim, mas e a Erundina?

– A inteligência do Lula esta ai. Ceder com charme e inteligência para conseguir o bem maior. Não brigar. Seduzir. Se associar. Ele sabe que o inimigo é forte e decidido. Goulart sofreu na carne isso. Allende idem e muito outros grande patriotas cujo único crime era trabalhar para os pobres e miseráveis. O erro deles? Atropelar os donos do poder. Se isolar e ficar em uma redoma de vidro discursando para o enorme vazio. E conseguindo nada além de um tapinha nas costas dos donos do poder que passam a dizer que vc é um sujeito coerente e ético. Desde que vc não me peça nada, claro. Porque se vc, individuo, pedir e não der nada em troca é cagada na certa porque a reação é violenta. Sempre.

 

– Sim, mas e a Erundina?

– Onde esta hoje a Marina? Onde esta hoje a Erundina? Onde estão hoje tantas pessoas do bem que não entenderam que isolados e dentro de seus sonhos utópicos não conseguem nada para ninguém? Onde esta o Che?

Sujeitos brilhantes que muito podiam contribuir na guerra constante entre os que tem e se apegam ao que tem e não querem partilhar e os que não tem?

Onde estão eles quando tanto precisamos?

Egoisticamente se isolaram. Até o Che. Deveria ter ficado por aqui lutando na mesma trincheira. Coragem é isso.

 

Sim, mas e a Erundina?

– É acadêmico e muito pouco importante se discutir que tipo de aliança política o Lula, por exemplo, teve que fazer para chegar ao seu objetivo. E qual o seu objetivo? O bem estar da gente humilde. Caralho, se eu tenho que me associar ao diabo para salvar da miséria um monte de gente eu não vou ter duvidas nenhuma em assim fazer. Procurar essa ética nestas alianças é de uma babaquice e cegueira política sem precedentes.

 

– Sim porra, mas e a Erundina que andou esculhambando o Lula?

– Erundina é até bem intencionada. Mas burra que nem uma porta. Minha filha, o negócio é fazer e se vc acha que vai conseguir fazer alguma coisa sem se associar aos grupos poderosos vc ta louca. E  vc sabe disso. Na tua passagem pela pauliceia vc sofreu na carne esta merda. E não aprendeu?

O problema não esta em ser fotografado ao lado do Maluf. O problema não é a foto. O problema é o fato. E qual o fato? Ganhar. Ganhar e quando ganhar fazer algo forte e que leve em consideração o bem maior que é atender os menos favorecidos. È complicado entender isso?

Se vc prefere ficar no seu canto e defender uma ética teórica, isolado e repetindo o mantra melhor só do que mal acompanhado, vai perceber que do seu lado há um miserável que também esta só e que pensou que vc poderia lutar por ele. E vc discursa que vc não se vende e não percebe que o miserável ao seu lado já foi vendido há muito tempo e clama por alguém que o resgate. Ele não quer discursos. Não quer egoísmos éticos. Quer ações. Quer vc lutando por ele. Quer que vc se associe a quem quer que seja mas que lute e não o abandone nunca. E enquanto vc duvida, enquanto vc pensa se é isso mesmo que ele quer, se ele vai entender a sua associação com quem nunca lutou por ele, enquanto vc hesita, discursa, luta no campo das ideias e não consegue nenhuma ação pragmática, ele continua abandonado. Vc não percebe que não há tempo. Vc tem tempo. Tempo intelectual e moral. Para ele o tempo é físico. E doloroso. Muito doloroso.

È difícil entender isso?

Isso quer dizer que os meios justificam o fim? Neste caso sim. Em alguns casos sim e em outros não. A vida não é feita de simples dicotomias. Há muita mais sutilezas. O que os Estados Unidos fazem em assassinar supostos terroristas e no processo matar alguns civis, eles justificam que o bem maior é a supressão de um perigoso terrorista que poderia causar a morte de muita gente. Esse é o processo mental americano. Foi isso que fizeram com Hiroshima e Nagasaki. Matam deliberadamente um monte de gente para hipoteticamente salvar um numero maior de outros. Nestes casos, os meios não justificam o fim. E esta bem claro. Ou alguém tem duvidas? No caso das alianças políticas, é claro que justificam. Por um simples motivo. Ninguém governa sozinho. Política é a arte das alianças. O Problema não são as alianças. O problema é o que vc faz com as alianças. E o que o Lula já fez, lhe da credito. De sobra. Não liga pra quem acha que o Lula anda pisando na bola. Esse acham que o Lula pisa na bola há décadas. Não enxergam nem um Titanic na frente. Nem com binóculos.

Mais humildade Erundina e menos empáfia. Vc não é dona dos valores éticos de ninguém.

 

Um urso branco enorme estava na soleira do bar, soltando um urro fenomenal. A produção de merda foi instantânea. Todos se cagaram. Alguns mais outros menos.

Por um segundo todos entenderam como o presidente do Paraguai se sentiu.

 

– chichi! Quieto…

Era apenas o branquela, histérico e minúsculo chiuaua de merda da Creusa, a duquesa de bosta que fazia um esporro dos diabos.

E todos voltaram a entender como o presidente paraguaio se sente agora.

 

– Quem berra muito tem o pinto pequeno.

Anastácio filosofava.

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